Para a cicatriz que vai chegar

 


Rio de Janeiro, 13 de abril de 2021.

Carta para a cicatriz que vai chegar.

Eu te espero. Continuamente. Calorosamente. Te espero pois sei que só você, com sua colcha de retalhos, de sorrisos e de doçura, vai cobrir o rasgo transversal que deixa à mostra minha ferida feita de delírios e ilusões. Não te espero desesperadamente porque, um dia, fui desesperada a ponto de me jogar no breu de um coração e saí de dentro dele toda remendada. Também não te espero ansiosamente pois, se me exalto, o sangue volta a jorrar em cascata do meu corte - sim, meu sangue goteja alucinações em vermelho e não pede licença para se espalhar em lençóis, em papéis ou em olhares que miram estrelas. Eu te espero com o olhar no horizonte, perdida na mansidão das miudezas da vida. Te espero com o cuidado de quem teme esbarrar nas próprias feridas, porque sabe que sentir, sozinha, faz tudo latejar. Não importa quantas horas faltem para que eu te veja na minha porta: te espero do avesso, pois preciso que me reconheças inteira, e escolha o meu remendo mais bonito para cicatrizar. 

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