Carta de Despedida


Salvador, Abril de 2021 

Querido Bem Ditas Cartas,

Já reparou que as melhores coisas dessa vida começam sem que a gente se dê conta? Alguns botões são apertados, gatilhos acionados, acordos selados e lá está: uma nova história para ser vivida. E nós vamos, com tudo, pelos caminhos, sejam eles feios ou bonitos, tecendo momentos que vão marcar a nossa vida pra sempre. E a gente nem percebe.

A gente não percebe quando as coisas começam. Mas quando é hora de ir embora, a gente sempre sabe. A gente sabe quando uma coisa não nos representa mais. Como se fossemos pescadores experientes, sempre sabemos quando é hora de puxar a âncora, recolher a nossa rede e voltar pro cais.Pode ser difícil, mas a gente sabe. E é por isso que hoje eu te escrevo essa CARTA DE DESPEDIDA. Chegou a minha hora de partir. Mas não sem antes te agradecer.

Você mudou muita coisa aqui dentro. Me deu impulso pra acreditar que eu sou algumas das coisas que eu só imaginava ser, em segredo. Levou a timidez, o medo de mostrar a minha voz... Aliás, você me ensinou que a minha voz merece ser ouvida com doçura e a minha mente desvendada com ternura. 

Me abriu espaço, pra espalhar alguns pedaços de mim, num momento em que toda a existência - da forma que eu conhecia - foi arrancada dos meus braços. 

De quebra, fui misturada a outras vozes e universos. E você ainda virou livro, cara! E vai me levar, na tua capa, pra descansar na estante de um bando de gente! Não tem tamanho a minha felicidade.

Mas, BemDitasCartas, você já é maior do que eu, embora tenha se tornado pequeno diante do que me é fundamental e eu não te sinta mais da mesma forma.

Em meio ao caos do mundo, eu sentia uma força imensa, porque eu sempre podia vir descansar aqui.

Mas, agora, eu tô cansada. Eu tô exausta, BemDitasCartas, porque infelizmente, eu ainda sou e preciso ser muitas coisas do lado de fora da poesia que eu insisto em pintar na minha vida. Escrever, pra mim, é necessidade. Não é atividade. Ás vezes, muitas vezes,eu prefiro o silêncio. Você não combina com isso, né? 

Então eu preciso partir.

Mas que coisa boa é sair pela mesma porta que tanta gente bonita tem chegado, viu? Te ver crescer é acalanto. Te ver continuar, será sempre uma sorte. E eu sei que vai, porque você tem vida própria e existe bonito.

Você é UMA IDEIA, nascida com muito AFETO. Não tem como dar errado.

Eu sinto muito por partir, BemDitasCartas, mas a melhor coisa é saber que você não existe por minha causa. Por isso, eu não sinto nem culpa nem medo pelo teu futuro. Te deixo em boas mãos.

É só olhar o tanto de gente que lota tua caixa de correios para emprestar voz, afeto e poesia a cada nova semana. Você é um mosaico. Eu, sou só uma pedrinha.

Eu agora vou pegar carona com as minhas amigas que partiram de você antes de mim. Se tu usar as lentes certas,saberá que os motivos são os mesmos. Mas também verá que tá tudo bem. Porque não é você, sou eu. Sou eu que não caibo mais aqui, porque eu preciso me espalhar por outros lugares, construir outras histórias. Eu vou embora escrever, nos meus caminhos, outras rotas, tão bonitas quanto essa aqui, e nas quais eu caiba, por inteiro. Como já não consigo caber no teu tamanho.

Levo comigo a minha escrita autobiográfica e furiosa, os meus desassossegos e desorganizações, e a minha voz. Mas deixo, contigo, um pedaço lindo da minha história e um espaço gigantesco no meu coração.

Qualquer coisa, me escreve. Me manda uma carta.

Você sabe onde me encontrar.

Um beijo,
Má.

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O projeto tem apoio financeiro do Estado da Bahia através da Secretaria de Cultura e da Fundação Cultural do Estado da Bahia - FUNCEB (Programa Aldir Blanc Bahia) via Lei Aldir Blanc, direcionada pela Secretaria Especial da Cultura do Ministério do Turismo, Governo Federal.

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