Gabriel,

 

Feira de Santana, 02 de fevereiro de 2021

Gabriel,

A gente levanta, finge que acorda, finge que aprecia o café, finge que está um bom dia! Começamos tudo de novo ou simplesmente não terminamos. Nunca sei se é uma nova história ou só a continuação do capítulo anterior. Inconformado continuo  a fingir que está tudo bem. E aqui para nós não sou o melhor ator mas garanto que consigo tirar de letra quando o assunto é fingir que estou bem, e obviamente não preciso de muito esforço…

É claro que não quero fingir mas pensa comigo o mundo não vai parar, ele continua a girar e girar e girar. Agora não sei mais fingir... 

Me expulso da cama, me embriago de café e percebo que de fato hoje não será um bom dia. Me olho no espelho sem reconhecer as mudanças que ocorreram nesse tempo ao qual fingia que estava tudo bem, é visível o meu desgaste. Faço a barba, corto o cabelo, preciso deixar o outro eu lado.

Abro a janela esperando uma brisa renovadora mas nada além de um céu nublado escondendo qualquer chance de brilho solar… Tomo um banho, passo aquele perfume, visto uma bela roupa, é muito importante para um personagem seu figurino. Pronto acho que agora posso enfrentar a dura realidade sem nenhum fingimento… O Celular toca, pode ser ela ou ele não sei, no caso só era minha mãe querendo saber como eu estava e não aguentei:

 - Oi, mãe! Tá tudo bem, o dia está lindo!


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O projeto tem apoio financeiro do Estado da Bahia através da Secretaria de Cultura e da Fundação Cultural do Estado da Bahia - FUNCEB (Programa Aldir Blanc Bahia) via Lei Aldir Blanc, direcionada pela Secretaria Especial da Cultura do Ministério do Turismo, Governo Federal.

Carta pro amor suficiente

 


Jundiaí, 13 de fevereiro de 2021

Moço... Menino... Amado... É estranho procurar apelidos carinhosos e questionar nossa relação, mas, de verdade, já parou pra pensar o que a gente espera do amor? Já tivemos inúmeras conversas inconclusivas, discussões longuíssimas, então estou escrevendo para tentar entender de vez, de coração aberto...

Há dias em que me vem uma lembrança de você, uma lembrança forte, que quero pra todos os dias... E, às vezes, depois dessa lembrança, fico pensando no que espero do amor, porque talvez eu espere você... Mas não faz sentido esperar se você tá aí, sei lá, esperando.

O que mais eu espero do amor além de você? Eu não sei. O que mais eu poderia esperar, além de conversar muitas horas seguidas sem constrangimento e dormir na casa um do outro, em família? O que mais, além do toque das suas mãos nas minhas, nos dias de tristeza? Ou que chorar no colo, dividir crises de ansiedade e histórias constrangedoras? O que mais, além da sua calma na minha agitação ou dos pratos divididos? 

O que mais eu espero do amor, além dos seus olhos castanhos prestando atenção nas minhas histórias bestas, do respeito incondicional e de você ser a pessoa em quem sempre penso quando meu coração não inventa amores mirabolantes?

A gente se meteu numa baita enrascada, porque em algum momento nos definimos como não e procuramos os nossos sins vida afora - sins que se encerraram em si mesmos e se hoje tornaram nada. Nunca nos apaixonamos um pelo outro, mas será que a sua ternura não seria suficiente? Será que o meu amor leve não seria suficiente? Será que dez anos de constância não são base suficiente pra construirmos sobre ela?

A gente romantizou o amor romântico. E agora parece que é tarde e que o que temos não é suficiente, apesar de ser enorme.

Cagada, né?! 

Ri, que uma parte de você tá achando engraçado e a outra tá ridiculamente nervosa. Eu também estou - rindo. Estou ridícula e corajosa te cantando, isso sim.

Eu nunca me imagino com você, sabe, mas é sempre alguém quase igual a você. Muito parecido, mesmo. Essa carta é pra realmente pensar se é suficiente. Não sou boa com suficiências, sempre fui exagero, mas aonde isso leva? 

Aproveito pra dizer que estou com muita saudade dos seus olhos prestando atenção nas minhas histórias. E que sinto suas mãos na minha, se me concentrar o suficiente. E que desejo que esteja bem e que, caso meu amor seja suficiente, a gente caminhe junto até o infinito - e caso não seja, por favor me conta o que mais eu estou procurando, porque não tenho conseguido encontrar. 

Como é o amor que você procura?

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Carta de Despedida


Salvador, Abril de 2021 

Querido Bem Ditas Cartas,

Já reparou que as melhores coisas dessa vida começam sem que a gente se dê conta? Alguns botões são apertados, gatilhos acionados, acordos selados e lá está: uma nova história para ser vivida. E nós vamos, com tudo, pelos caminhos, sejam eles feios ou bonitos, tecendo momentos que vão marcar a nossa vida pra sempre. E a gente nem percebe.

A gente não percebe quando as coisas começam. Mas quando é hora de ir embora, a gente sempre sabe. A gente sabe quando uma coisa não nos representa mais. Como se fossemos pescadores experientes, sempre sabemos quando é hora de puxar a âncora, recolher a nossa rede e voltar pro cais.Pode ser difícil, mas a gente sabe. E é por isso que hoje eu te escrevo essa CARTA DE DESPEDIDA. Chegou a minha hora de partir. Mas não sem antes te agradecer.

Você mudou muita coisa aqui dentro. Me deu impulso pra acreditar que eu sou algumas das coisas que eu só imaginava ser, em segredo. Levou a timidez, o medo de mostrar a minha voz... Aliás, você me ensinou que a minha voz merece ser ouvida com doçura e a minha mente desvendada com ternura. 

Me abriu espaço, pra espalhar alguns pedaços de mim, num momento em que toda a existência - da forma que eu conhecia - foi arrancada dos meus braços. 

De quebra, fui misturada a outras vozes e universos. E você ainda virou livro, cara! E vai me levar, na tua capa, pra descansar na estante de um bando de gente! Não tem tamanho a minha felicidade.

Mas, BemDitasCartas, você já é maior do que eu, embora tenha se tornado pequeno diante do que me é fundamental e eu não te sinta mais da mesma forma.

Em meio ao caos do mundo, eu sentia uma força imensa, porque eu sempre podia vir descansar aqui.

Mas, agora, eu tô cansada. Eu tô exausta, BemDitasCartas, porque infelizmente, eu ainda sou e preciso ser muitas coisas do lado de fora da poesia que eu insisto em pintar na minha vida. Escrever, pra mim, é necessidade. Não é atividade. Ás vezes, muitas vezes,eu prefiro o silêncio. Você não combina com isso, né? 

Então eu preciso partir.

Mas que coisa boa é sair pela mesma porta que tanta gente bonita tem chegado, viu? Te ver crescer é acalanto. Te ver continuar, será sempre uma sorte. E eu sei que vai, porque você tem vida própria e existe bonito.

Você é UMA IDEIA, nascida com muito AFETO. Não tem como dar errado.

Eu sinto muito por partir, BemDitasCartas, mas a melhor coisa é saber que você não existe por minha causa. Por isso, eu não sinto nem culpa nem medo pelo teu futuro. Te deixo em boas mãos.

É só olhar o tanto de gente que lota tua caixa de correios para emprestar voz, afeto e poesia a cada nova semana. Você é um mosaico. Eu, sou só uma pedrinha.

Eu agora vou pegar carona com as minhas amigas que partiram de você antes de mim. Se tu usar as lentes certas,saberá que os motivos são os mesmos. Mas também verá que tá tudo bem. Porque não é você, sou eu. Sou eu que não caibo mais aqui, porque eu preciso me espalhar por outros lugares, construir outras histórias. Eu vou embora escrever, nos meus caminhos, outras rotas, tão bonitas quanto essa aqui, e nas quais eu caiba, por inteiro. Como já não consigo caber no teu tamanho.

Levo comigo a minha escrita autobiográfica e furiosa, os meus desassossegos e desorganizações, e a minha voz. Mas deixo, contigo, um pedaço lindo da minha história e um espaço gigantesco no meu coração.

Qualquer coisa, me escreve. Me manda uma carta.

Você sabe onde me encontrar.

Um beijo,
Má.

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Para depois do amanhecer


Carta para depois do amanhecer

Quando você estiver lendo esta carta eu já terei ido embora. Tenho pânico em prolongar despedidas; prefiro os silêncios e um aceno de longe, principalmente entre duas pessoas como nós, quebradas e latejando dores com as quais ainda não sabemos e nem queremos lidar.

Talvez você não tenha conseguido perceber, mas existe um detalhe sobre mim que é possivelmente o mais alarmante: acredito no amor. Esse é  o único traço delicado da minha personalidade — e também o mais intenso. Eu respiro o amor, como o amor, me cubro com ele. Mergulho no amor da cabeça aos pés, mesmo quando não é profundo o suficiente para me abrigar. Luto pelo amor. Eu fico. Acredito na cura através de. Danço com o amor. Faço manifestos nada sutis para que ele seja sentido em tantos mundos quantos forem possíveis. Não desfaço minhas malas em nenhum espaço onde ele não esteja, mas se o ambiente for receptivo, tento eu mesma plantá-lo. Em mim o amor está e é. E prestando atenção um pouco mais de perto, você perceberá que, à parte tudo, amor eu sou.

Não uso frases decoradas, não sei atuar, me guio pela minha intuição noventa e nove por cento das vezes. Minha sensibilidade equilibra o timbre da sua fala, seu jeito de estar, a maneira como você pontua uma expressão. Abrange o que você guarda nos olhos e o que tenta esconder enquanto pisca. Consigo enxergar o que fica pendurado nos seus cílios, o que diz o movimento que você faz com as mãos e a maneira como você segura o copo antes de receber a bebida em sua língua. Pelo abraço faço radiografia completa das veias por onde escorrem os seus melhores carinhos. Se eles vão desviar em direção aos meus, a cadência do seu coração explicará.

(...)

 (Do livro "Bem Ditas Cartas", página 56).


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