Hoje tá foda.

 


Moça, eu tô te escrevendo pra você não me esquecer, mas a verdade é que eu não tenho absolutamente nada de novo pra te dizer. 

As coisas continuam difíceis e o mundo continua mesmo meio feio. Às vezes, encaro a minha janela e me pergunto: "A vida é isso? A vida é... Só isso?!"

Entre risos, me deixo balançar no ritmo da rede que eu pendurei no meio da minha sala. 

E escolho cores diferentes pra enfeitar a casa e o sorriso, mesmo sabendo que não vem ninguém apreciar.

Sozinha, descubro verdades alarmantes a meu respeito. 

Sabe, moça, eu gosto dele. Pois é. 

E eu sinto saudade de tomar sorvete olhando o mar. E eu não tenho mais PACIÊNCIA pra quem finge ser doce e só entrega amargura nas palavras. 

Moça, a única coisa que a gente tem hoje pra interagir com o mundo, são as nossas palavras. E algumas pessoas não compreendem o peso que elas têm. 

Acho que é por isso que tenho escolhido o silêncio, tenho escolhido esconder debaixo da cama as minhas opiniões.

É que, como eu disse, as coisas andam difíceis, o mundo já é muito feio e eu sinto que se eu não tiver um pouquinho de mel nos meus lábios, melhor mesmo é não dizer nada. 

E aí eu me recolho à insignificância de uma existência completamente ordinária. Não tem nada maravilhoso pra te contar. 

Pela manhã, eu tomo um copo bem quente de café, acendo um incenso de lavanda e suspiro um sopro de esperança que se esvai pelas frestas na porta, na primeira oportunidade. 

Eu sinto saudade de muita gente, moça. Mas também sinto alívio pela distância da maioria dessas pessoas. 

Eu tenho pressa pra que certas coisas acabem logo, projetos se concluam e eu possa seguir sendo só uma menina que chora sozinha no escuro precisando de um denguinho. 

Aliás, moça, que falta faz um dengo nesses dias difíceis, viu? 

Um carinho qualquer. 

Tô ansiosa, tô carrancuda, vivo aborrecida. Acabou o açúcar e tá sobrando limão.

E eu desejo um bolo de chocolate com cobertura escorrendo pelas beiradas do prato. Assim, bem muito. 

Aí, moça. Eu espero mesmo que amanhã seja doce. Porque, hoje... Hoje tá foda.


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O projeto tem apoio financeiro do Estado da Bahia através da Secretaria de Cultura e da Fundação Cultural do Estado da Bahia - FUNCEB (Programa Aldir Blanc Bahia) via Lei Aldir Blanc, direcionada pela Secretaria Especial da Cultura do Ministério do Turismo, Governo Federal.

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