Mô, por trinta segundos eu até esqueci que perdi o direito de te chamar assim. E nem sei se é culpa do hábito mesmo ou se é por causa do porta-retrato que eu ainda não tirei da sala. É que essa foto é tão a gente. E você me olha direto dela. De dentro de um abraço tão gostoso, de um momento tão sereno, de um sentimento tão genuíno… Que às vezes parece impossível que ele não exista mais. 

Eu sei. Você esperava um pouco mais de drama quando me disse que ia embora. Mas dessa vez eu tenho certeza que não é por causa da frieza, costumeiramente atribuída às tendências astrológicas do sol em aquário. É a fase mesmo. Aquela em que você não tá nem perto de ter idade pra achar que aquele pode ser o último amor da sua vida e também já tem idade suficiente pra ter certeza de que vai passar. Porque em todas as outras vezes, passou. 

Você já sabe que nada como pipoca gostosa e lavanda no travesseiro antes de dormir pra tranquilizar o sono choroso enquanto a aceitação não vem. E você lembra de um monte de coisa também. Como por exemplo que o vinho barato pedido de última hora com cupom de desconto do rappi pro date com você mesma, ele pode te deixar irresponsavelmente feliz. E como você é completa sozinha, hein?

E os amigos? tem os amigos também. Tem os que você acabou esquecendo e volta a falar e os que nunca saíram de perto, mesmo você desmarcando todos os rolês pra ficar com alguém de conchinha assistindo Netflix. Ou só ouvindo mesmo.

Mas o que importa mesmo é que antes de você esperar a pessoa que passa na rua com o mesmo perfume que pra você durante anos significou amor, ela já não te diz mais nada. E aquele lugar que tem o pôr do sol mais romântico da cidade já não te lembra mais ninguém. Ele é só seu. E rende cada foto linda, viu? Como a foto nova que eu acabei de colocar no porta-retrato que tinha a gente . Sobre a nossa, por favor não pergunta, tá? Pelo menos por enquanto. Se cuida.

🔻

🔻

🔻

O projeto tem apoio financeiro do Estado da Bahia através da Secretaria de Cultura e da Fundação Cultural do Estado da Bahia - FUNCEB (Programa Aldir Blanc Bahia) via Lei Aldir Blanc, direcionada pela Secretaria Especial da Cultura do Ministério do Turismo, Governo Federal.

Ei, moça!

 



Ei, moça, hoje eu acabei de ver aquela série. É, aquela que a gente tinha combinado de ver juntas. Eu comecei a ver no dia seguinte do fim, foi meio que uma despedida, sabe? Doeu no começo, não vou negar, depois foi ficando a parte boa, as lembranças, aquelas, inesquecíveis. Cada episódio tinha músicas de um cantor diferente e esse último, que acabei de ver agora, tinha músicas da Cássia. E eu acho que nunca te contei, porque sempre achei meio piegas, mas muitas músicas dela me fazem lembrar de você. É uma série sobre paixões, sobre intensidade, indas e vindas. Intensidade. Acho que esse é o meu maior problema, sabia? Tem tanto aqui dentro que nunca soube caber em espaço pequenos, comigo sempre transborda. Eu quis ver ela, a série, bem devagar, saboreando cada frase pontualmente,. Talvez por me lembrar tanto a gente, eu não queria terminar rápido, medo do fim, fim esse que já aconteceu, mas que a gente demora as vezes pra entender. Mas esse último episódio, eu devorei de uma só vez, na ânsia de saber se eles iam terminar juntos, mas não, não terminaram, como toda grande paixão, todo grande amor. Mas o final não foi triste, nem foi feliz, só foi, bem como a gente. A última música, é uma música do meu grande ídolo Renato Russo, cantada pela Cássia, chama Por enquanto. Não sei se você conhece. Cada trechinho dela canta você pra mim, canta o nosso nós, o nosso quase, o quase mais bonito que eu já vivi. O tempo está passando rápido demais e você não passa aqui dentro. Talvez não passe nunca. Eu sei que você não foi o grande amor da minha vida, porque acho que amor precisa de muito mais do que a gente viveu, mas a paixão... Ah, moça, desde que parei a primeira vez nesses teus olhos cor-de-terra, eu já sabia que tinha me apaixonado. Coisa derradeira essa de paixão, né? Toma a gente por completo, nos enlouquece. Você me tomou de todas as formas possíveis. Mas como toda paixão, no fundo a gente sabia, era feita pra não dar certo. Não vou dizer que não acreditei, sim, eu acreditei, mas sou capricorniana, sempre tive meu pé atrás, ainda bem, senão o tombo teria sido maior. Foi exatamente como tinha que ser. Não me arrependo, ao contrário, foi uma das coisas mais bonitas que já senti, você continua presente mesmo na ausência, as lembranças tão vívidas não me deixam passar um dormir ou acordar sem pensar em você. E eu, já nem tento mais fugir. Vou deixar aqui a música, pra você sentir e quem sabe, também não esquecer de mim.

Mudaram a estações, nada mudou, mas eu sei que alguma coisa aconteceu, tá tudo assim tão diferente. Se lembra quando a gente chegou um dia a acreditar que tudo era pra sempre? Sem saber que o pra sempre, sempre acaba. Mas nada vai conseguir mudar o que ficou. Quando penso em alguém, só penso em vc e aí então, estamos bem. Mesmo com tantos motivos pra deixar tudo como está, bem desistir, nem tentar, agora tanto faz, estamos indo de volta pra casa... 

🔻

🔻

🔻

O projeto tem apoio financeiro do Estado da Bahia através da Secretaria de Cultura e da Fundação Cultural do Estado da Bahia - FUNCEB (Programa Aldir Blanc Bahia) via Lei Aldir Blanc, direcionada pela Secretaria Especial da Cultura do Ministério do Turismo, Governo Federal.

Fevereiro

 


Pois é, Fevereiro, meu bem. Esse mês bonito que, só de falar, já me deixa com água na boca. O mês que arrasta multidões de um lado pro outro, pra cima pra baixo e... Aqui estamos nós: trancafiados. Se-pa-ra-dos. Quem diria, ein? É, baby, esse ano não tem chuva, suor e cerveja.  E você não vai correr o delicioso risco de tropeçar num grande amor em alguma esquina da cidade. Agora, todo passo precisa ser milimetricamente calculado e cheio de protocolos. Não se pode andar por aí, sem rumo, fantasiado de todas as cores, enchendo de alegria a praça e o poeta, como manda a canção.

Sei que não temos lá muitos motivos pra comemorar esse ano. Eu também acompanho o noticiário, ainda que me dê vontade de gritar.

Mas, cara, não seria bom poder jogar confete e serpentina em tudo o que é escuro e feio e enfeitar a vida até que fosse verdade? Pra mim, é impossível não ficar triste sem carnaval.  Simples e irremediavelmente triste.  Sentindo saudade de todos os amores que estou sendo impedida de viver e sentir. E chorando por todo o carnaval de sensações que me foi arrancado sem aviso prévio. Morrendo de vontade: das luzes, dos gostos, das andanças, dos sons... E esperando que o próximo verão chegue trazendo um bocadinho dos sorrisos que não foram exibidos pelas ruas da cidade esse ano. Mas, apesar de triste, eu te prometo, baby: que “haverão outros verões”, carnavais e tudo mais. 

Quando esses dias chegarem, pode deixar que eu vou mimar você. Nas quatro estações. Como diz a música.  E meu coração vai estar bem aqui, em festa, batucando em ritmo acelerado o quanto eu te quero bem. A minha fantasia, esse ano, é um dia poder te encontrar!

🔻

🔻

🔻

O projeto tem apoio financeiro do Estado da Bahia através da Secretaria de Cultura e da Fundação Cultural do Estado da Bahia - FUNCEB (Programa Aldir Blanc Bahia) via Lei Aldir Blanc, direcionada pela Secretaria Especial da Cultura do Ministério do Turismo, Governo Federal.

Bingo


Vitória da Conquista, março de 2020

Bingo,
no rolo da minha câmera
onde antes existia
uma sequência de selfies
existe agora um amontoado de você
com várias poses
engraçadas e fofas
e um sentimento novo
brinca no meu coração
cada vez maior
desde que você me ensinou a viver
tudo diferente
você é um cachorro
a alma mais sincera do mundo
professor de agoras
você é feliz no hoje
me puxa para o presente
me acorda para o instante
você é carinhoso ao pedir carinho
enlouquece quando estamos loucos
é feliz mesmo quando parece triste
você acendeu uma luz
tão linda e dócil
aqui em casa
e dentro de nós seis
que eu às vezes esqueço
que um dia chamamos de lar
algo que não era assim tão completo
até você chegar
eu nunca imaginei um dia
que um trocinho de quatro patas
iria ressignificar o sentido
de muito do tudo que sinto
eu falo de amor diferente
depois de amar você
e aí eu continuo
e deito e cheiro e beijo você
que não gosta de abraços
mas abraça nós todos de uma vez
do seu jeito de bicho
ignorando os nossos defeitos e falhas
e enxergando muito
daquilo que às vezes nem a gente sabe que tem
sabia que atualmente
o meu novo som preferido
é o barulhinho das suas patinhas
se aproximando cada vez mais
depois de me ouvir dizer:
cadêoneneindeZayaB?
em tempos de quarentena
você se empolga 
com todas essas presenças em tempo integral
aí então todo mundo entende
sobre a oportunidade
e o privilégio
que é estarmos embolados
com tudo
e com você
vou escrevendo e refletindo
que nunca pensei um dia falar de amor
para um cachorro
concluo que quem me conheceu antes de você
já não me conhece mais
e tudo que eu amei antes de você
hoje amo melhor
e mais bonito
obrigada, B.


🔻

🔻

🔻


O projeto tem apoio financeiro do Estado da Bahia através da Secretaria de Cultura e da Fundação Cultural do Estado da Bahia - FUNCEB (Programa Aldir Blanc Bahia) via Lei Aldir Blanc, direcionada pela Secretaria Especial da Cultura do Ministério do Turismo, Governo Federal.

Remetentes