Equilíbrio Distante

 


Vitória da Conquista, janeiro de 2021

Gabi,

Tua carta me fez voltar a um tempo antigo, quando eu tinha uns oito anos. Lembro que um dia tava tocando o “Equilíbrio Distante” lá em casa e fiquei meio hipnotizada com as pronúncias e o tom daquela língua que cantava talvez sem precisar de música alguma. Era ela mesma a própria cadência. Às vezes penso até que se o coração da gente tivesse voz, ele provavelmente falaria italiano, tu não acha?

Adotei aquele CD como se fosse meu. Renato cantava e eu acompanhava pelo encarte todas as letras. Naquela época eu não tinha acesso a sites de tradução — e na verdade não via graça nenhuma no computador. E também não tinha em casa nenhum dicionário daquele vernáculo. O que eu fiz? Passei a copiar as composições uma por uma no caderno, para aprender a escrever, decorar, e pronunciar sem erros. Pouco tempo depois eu já cantava as minhas preferidas de olhos fechados e numa pronúncia que saía de dentro de mim como poesia. Absolutamente TODAS as vezes que esse disco toca, eu me transporto para esse lugar. Vejo a sala da antiga casa, a coleção de discos e o jeito como o sol invadia a mesa no final da tarde.

O tempo passou e a vida aconteceu — meio acelerada, só agora sinto. Fiz curso de inglês, tive aulas de espanhol na escola. Uma vez, morando em Boa Vista, próximo à fronteira com a Venezuela, fomos a uma cidadezinha do país e me peguei parando no meio da rua para ouvir as pessoas falando de um jeito tão latino que parecia um tempero especial, me enchendo a boca de vontade de provar. Espanhol e italiano são, para mim, as línguas mais passionais que existem. Começarei aulas assim que der, porque, como eu te disse, meu único grande sonho de viagem internacional é estar por ali (mesmo tendo essa certeza de que já estive um dia).

Aí, por um acaso tão massa desse mundo chamado internet, um dia nossas palavras se encontraram. E lá estava você me contando sobre a Itália e sobre seu disco de cabeceira: “Equilíbrio Distante”. Uma amizade que se abraça por conta de coincidências assim é presente sagrado, muito mágico. Eu queria te agradecer por acordar minha memória e fazer uma conexão tão bonita como essa, me mostrando o quanto vale a pena escrever, o quando é bonito esse projeto de cartas e todas as portas que ele abriu. Você aqui no BemDitas já é tão de casa que nem precisamos mais de cerimônias. Caminhamos descalças pela poesia.

Obrigada por compartilhar-se através das letras. Por ser fonte de inspiração, de motivos para acreditar na palavra como ponte. Obrigada por atravessá-la e por termos nos encontrado do lado de cá. Sigamos resistindo, com nossos grandes pequenos sonhos. Nossa força. E nossa escrita.

Você é um presente.

Te abraço e espero que o encontro aconteça logo ali,

Jaya.


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O projeto tem apoio financeiro do Estado da Bahia através da Secretaria de Cultura e da Fundação Cultural do Estado da Bahia - FUNCEB (Programa Aldir Blanc Bahia) via Lei Aldir Blanc, direcionada pela Secretaria Especial da Cultura do Ministério do Turismo, Governo Federal.

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