Meu caro amigo


 Meu caro amigo,

Você foi embora e só me deixou o Chico Buarque. Não ficou o perfume, nem a lembrança, nem a saudade do que podia ter sido e não foi. 

Não sobraram apelidos carinhosos, descobri quase todos intoleráveis... Meu bem, amor, gatinha... Essa nunca fui eu e a gente nunca se coube, nem quanto nos pedíamos pra ficar. 

Você foi embora e os textos que ficaram são todos bestas, pouco se salva da minha escrita romântica daqueles dias... Não tem um texto sequer sobre seus olhos ou seu sorriso. Não tem um lugar que seja nosso - ficamos no lugar comum, literalmente.

E não adiantou a formação parecida, nem o signo complementar, nem sermos assunto da terapia um do outro, você foi embora. E eu nem fiz caso, sabe? Segui e tenho poucas memórias daquelas poucas semanas, que pareciam eternas.

A única coisa específica que ficou foi o Chico Buarque, que escuto às vezes. E, dentro desse pequeno hábito de escutar o Chico, raramente ele me remete a você... Tiro o pó de você na minha memória quando o escuto, sabe? Mas, mesmo tirando o pó, você não quer dizer mais nada, e me concentro no que o Chico diz. Geralmente ele fala dos caos de dentro e de fora. Fala que "aqui na Terra 'tao jogando futebol'" e que é "muita mutreta pra levar a situação, e a gente vai levando só de birra, só de graça" e penso em coisas muito mais perto de mim do que você está agora. 

Escuto ele falando que "apesar de você, amanhã há de ser outro dia". E esse "você" não é você faz tempo, se é que já foi. Muitos outros "você" são obstáculos maiores. Obstáculos a coisas maiores. Mais urgentes que minhas memórias empoeiradas, ainda que eu esteja vivendo de passados. E me concentro nesses outros "vocês" e no amanhã, que há de ser outro dia...

O mantra dos nossos dias é "vai passar", meu caro amigo... E espero que passe tão definitivo quanto você passou... Que fiquem algumas músicas... talvez de minha vida de agora fique o Jeneci e o resto passe, também. De você, ficou o Chico. O Chico e mais nada.

Abraço para você e para os teus...

A todo o pessoal e a você, adeus.

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O projeto tem apoio financeiro do Estado da Bahia através da Secretaria de Cultura e da Fundação Cultural do Estado da Bahia - FUNCEB (Programa Aldir Blanc Bahia) via Lei Aldir Blanc, direcionada pela Secretaria Especial da Cultura do Ministério do Turismo, Governo Federal.

Meu amor




Pra mim é sempre fácil e difícil ao mesmo tempo te escrever uma “carta de amor”. Primeiro, por já ter escrito e falado tanto pra você por tantas vezes, por não termos pudor ou economia em declarações, que chega a soar repetitivo. Segundo que são tantos e tão fortes sentimentos que nenhuma palavra vai chegar aos pés dos nossos silêncios, olhares, conversas, encontros. Não há como explicar. 

Após tanta estrada, cada dia é mais amor que nunca e eu consigo, hoje, chegar perto de compreender como é possível ao amor mover tantas guerras, tragédias e tramas ao longo da história. Sem perigo de parecer hipérbole, não havia em mim sentimento que se compare ao que sinto por você antes de estarmos e sermos juntos. Você me traz todas as certezas que eu sempre busquei em outros cantos da vida, toda base, apoio, do chão ao céu. Tenho em você meu melhor amigo, meu amor, meu presente e meu futuro. Somos tanto juntos, que não suponho nenhuma idealização melhor que nossa realidade, posto que imperfeitos, mas comutando acertos e desacertos temos tudo o que precisamos pra construir cada alicerce. 

Eu sorrio para o vento e é indisfarçável o seu rosto que me vem a mente, perpassa minhas terminações nervosas, acelera o peito e salta pele e boca, arrepios e o arco orelha a orelha de felicidade sincera, ainda que por vezes permeada de saudades. Ah, meu amor. Eu viveria toda nossa caminhada do mesmo jeito com a certeza de que na vida não haverá amor algum que nem o nosso, ainda que algum dia a gente venha a desviar nossos caminhos. 

Você é tudo o que me transborda, as raizes dos meus pés exaustos, as estrelas nas madrugadas de amor, vinhos e músicas, o inesperado mais delicioso e bem vindo dessa minha encarnação, meu pensamento do abrir ao fechar de olhos, a razão de mais uma carta das tantas que escrevi e escreverei a teu destino. Te amo com todo o meu ser e minha alma.

15 de dezembro de 2020

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Mas isso não é amor


Salvador, Janeiro de 2021

Benzinho,

Eu sei que "todas as Cartas de Amor são ridículas", mas... E se não for exatamente amor?

Se for só um bocadinho de paixão, com pitadas de carência e um tanto de desejo que arde no peito confundindo os sentidos?

É que a perna fica bamba, a saliva engrossa e o coração acelera num samba, toda vez que eu soletro teu nome.

Eu quero te trazer pra perto. Pra dentro. E eu quero que você me chame, com tuas consoantes marcadas, pra cair na tua conversa fiada. Eu sempre caio. Mas isso não é amor.

Eu quero devorar teus pontos, contornar tuas linhas, abrir com os dentes a porta do teu mundo, me aninhar no teu peito e dormir de conchinha com teu riso acanhado.

Mas isso não é amor.

Eu suspiro o caminho inteiro quando é dia te encontrar, mesmo que só em pensamento. Mas... isso não é amor.

Acho que essa carta também é meio ridícula, mesmo que não seja exatamente sobre amor, porque o desejo é também engraçado, desgraçado e feio.

E forte.

E amalucado.

E doce.

E confuso.

E... Quase amor.

Ai, Ai, Benzinho. Isso definitivamente não é amor, mas...

Se tu chamar, eu vou. Se tu deixar, eu fico.

Um beijo,

Má.


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Equilíbrio Distante

 


Vitória da Conquista, janeiro de 2021

Gabi,

Tua carta me fez voltar a um tempo antigo, quando eu tinha uns oito anos. Lembro que um dia tava tocando o “Equilíbrio Distante” lá em casa e fiquei meio hipnotizada com as pronúncias e o tom daquela língua que cantava talvez sem precisar de música alguma. Era ela mesma a própria cadência. Às vezes penso até que se o coração da gente tivesse voz, ele provavelmente falaria italiano, tu não acha?

Adotei aquele CD como se fosse meu. Renato cantava e eu acompanhava pelo encarte todas as letras. Naquela época eu não tinha acesso a sites de tradução — e na verdade não via graça nenhuma no computador. E também não tinha em casa nenhum dicionário daquele vernáculo. O que eu fiz? Passei a copiar as composições uma por uma no caderno, para aprender a escrever, decorar, e pronunciar sem erros. Pouco tempo depois eu já cantava as minhas preferidas de olhos fechados e numa pronúncia que saía de dentro de mim como poesia. Absolutamente TODAS as vezes que esse disco toca, eu me transporto para esse lugar. Vejo a sala da antiga casa, a coleção de discos e o jeito como o sol invadia a mesa no final da tarde.

O tempo passou e a vida aconteceu — meio acelerada, só agora sinto. Fiz curso de inglês, tive aulas de espanhol na escola. Uma vez, morando em Boa Vista, próximo à fronteira com a Venezuela, fomos a uma cidadezinha do país e me peguei parando no meio da rua para ouvir as pessoas falando de um jeito tão latino que parecia um tempero especial, me enchendo a boca de vontade de provar. Espanhol e italiano são, para mim, as línguas mais passionais que existem. Começarei aulas assim que der, porque, como eu te disse, meu único grande sonho de viagem internacional é estar por ali (mesmo tendo essa certeza de que já estive um dia).

Aí, por um acaso tão massa desse mundo chamado internet, um dia nossas palavras se encontraram. E lá estava você me contando sobre a Itália e sobre seu disco de cabeceira: “Equilíbrio Distante”. Uma amizade que se abraça por conta de coincidências assim é presente sagrado, muito mágico. Eu queria te agradecer por acordar minha memória e fazer uma conexão tão bonita como essa, me mostrando o quanto vale a pena escrever, o quando é bonito esse projeto de cartas e todas as portas que ele abriu. Você aqui no BemDitas já é tão de casa que nem precisamos mais de cerimônias. Caminhamos descalças pela poesia.

Obrigada por compartilhar-se através das letras. Por ser fonte de inspiração, de motivos para acreditar na palavra como ponte. Obrigada por atravessá-la e por termos nos encontrado do lado de cá. Sigamos resistindo, com nossos grandes pequenos sonhos. Nossa força. E nossa escrita.

Você é um presente.

Te abraço e espero que o encontro aconteça logo ali,

Jaya.


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