Então é Natal...


São Paulo, dezembro de 2020

Então é natal...

E pela primeira vez, a Simone não vai perguntar o que você fez.

Se você está lendo essa carta, você sobreviveu. Parece óbvio, mas não é. Parece pouco, mas não é. Eu espero que você escute com carinho o que a minha alma tem pra te dizer.

Em 2020, você sobreviveu a uma pandemia mundial. M-U-N-D-I-A-L! Quantas vezes a morte bateu à sua porta e deu meia volta? Você pode me responder que é porque ainda não chegou a sua hora. E não parecia ter chegado a hora de um monte de gente também, se não fosse essa doença. Eu sei lá porque as coisas acontecem! Eu sei lá o propósito de tudo isso!

Só sei que muita gente querida partiu esse ano. Não consigo nem imaginar quantas cadeiras estarão vazias na ceia de natal. 

Eu sinto muito se você perdeu alguém. De coração, eu desejo que o tempo ajude a aliviar essa dor. Do fundo do meu coração, eu desejo que você não perca a esperança de dias melhores. 

Ai, eu nunca fui de celebrar natal, não tenho nem árvore em casa, mas queria pendurar um pisca-pisca na parede do meu quarto. 

É assim que chama aquelas luzinhas coloridas, né?

Pois é. Preciso iluminar as coisas por aqui.

A verdade é que não vai ter festa. Não tá podendo aglomerar e nem tem clima pra comemorar!

Acho que eu vou acender uma vela, agradecer pela vida, pedir proteção pra minha família... Ah, aproveitar a oportunidade e pedir pela vacina. Uma vacina rápida, gratuita e abençoada pela ANVISA.

Talvez esse ano, a gente até se lembre que o natal é sobre Jesus...

Ausência

 


Salvador, abril de 2020

Dissemos tudo. Repetimos tudo.
Eu já não consigo lembrar de uma coisinha sequer que deixamos de dizer.
O sentimento morreu ali mesmo: engasgado com as palavras que atiramos um no outro. Sem dó, sem paciência, sem uma pontinha de remorso.
CULPADOS! Nós dois.
Por transformar fragmentos em uma longa e dolorosa história
Difícil até lembrar o que havia de bom. E, tendo tudo dito, esclarecido, como num vício pelo final perfeito, nós perdemos a beleza de sentir.
O "timing", é como chamam. 
Perdemos o "timing".
Entre um gole de café e outro eu ainda penso em como será que as coisas estão funcionando por aí.
Por aqui, restou o silêncio. 
E a sua ausência, que preenche cada espaço de mim.

Um apego...

 


Rio de Janeiro, 29 de novembro de 2020

Passei o domingo inteiro tentando não lembrar, fingindo não me importar, mas não teve jeito, a cor dos seus olhos sempre invadem a minha mente quando fecho os meus. É como correr para fugir de algo e acabar voltando ao mesmo lugar. Esse lugar, no caso, é você e o que eu não queria que despertasse em mim. Uma vontade de ter aquilo que não posso.

E mesmo que pudesse, não deveria querer. Porque é errado. Você é insanamente errado. Um mau caminho que acendeu todos os meus desejos por perigo, que atiça com todos os tipos de joguinhos que já sei de cor, mas caio. E me instiga com essa cara de bobo com maldade. Cara essa que sabe me devorar inteira sem nem me tocar. E então decoro os teus lábios que mais parecem dançar com os meus quando nos entregamos aos nossos beijos.

 A gente não perde o passo e o tempo parece congelar para caber nesse momento de nós dois. Essa dança que nem ensaiamos e o ritmo parece já ser tão intimamente conhecido. Mas às vezes queria viver um filme, tipo Joe e Clementine, para apagar essas memórias que me fazem viajar para lugares já vividos. Como apagar você revirando na cama à noite para cheirar os meus cabelos, dar beijos na minha testa e desejar boa noite. Ou você se encaixando em mim ou tentando me encaixar em você, numa conchinha gostosa demais. Ou sua massagem em meus pés depois de um dia foda. 

Ou tantas outras memórias...Talvez eu passe por você amanhã, consiga te dar um sorriso e disfarçar essa dificuldade de não lembrar você. Agora entendo bem a minha memória ruim, ela reserva espaços para apegos imaginários... E é o que você é... Bem... Pelo menos eu prefiro acreditar que seja isso, será mais fácil assim. 

p.s.: escrevo para não mais guardar você dentro de mim!

Carta para quem quiser.




Salvador, novembro de 2020

Carta para quem quiser

Talvez a gente ainda não se conheça, mas eu te escrevo pra que você leia isso com o corpo todo. 

Quero te contar das viagens que eu tenho feito sem sair do lugar, nesses tempos. Do eterno transe atlântico que o oceano no meu peito me faz navegar. Às vezes acho que sei pra onde tô indo, o que tô fazendo, penso que tô no controle de tudo. Sinto que sei muito sobre as marés, mas depois eu lembro que me ensinaram muito mais sobre os desertos. Mas no fim das contas, eu sinto que tenho errado nos caminhos certos. 

Eu treino meu olhar pra enxergar mais longe, meus ouvidos para ouvirem mais fundo, minha fala pra ser mais direta. De vez em quando me pego podando as arestas das minhas florestas e modificando meus mapas. Os territórios abandonados me doem profundamente. Detesto ver que tem tanta casa vazia e tanta gente sem casa. Também lamento muito o salitre corroendo as estruturas na orla da cidade. 

Mas eu tendo a acreditar nas forças invisíveis, nos movimentos coletivos e nas sintonias dos abismos. Não sei se você aí do outro lado também é assim, mas às vezes eu me acho otimista demais com o futuro. Tenho uma esperança bonita e ridiculamente ingênua sobre um outro tempo de existência, um outro modo de ficar, de partir, de criar. Eu boto fé em tanta coisa boa... que às vezes eu me sinto meio mal por isso. Essa mania estranha de botar açúcar no salgado, chamar isso de “agridoce” e tentar convencer todo mundo de que fica melhor assim, sabe? É um pouco disso.

Me pego sempre escrevendo sobre temas sem fins concretos, nunca chego a lugares definitivos, eu não concluo praticamente nada com meus textos. Realmente não sei se caibo nas coisas bem acabadas. Gosto de ter a possibilidade. Eu atiro a isca bem longe, sento na beira dos meus olhos e me ponho a conversar com os peixes... não pra pescar, mas pra ser pescada por eles. Às vezes, tenho medo de como tudo isso chega aí do outro lado. Tenho medo de assustar ou afastar o outro com a minha entrega e também com o meu silêncio. Às vezes eu mergulho de cabeça, às vezes eu só molho o pé. E nem sempre tem peixe... e tá tudo bem.

Bom, eu espero que o sol que vejo daqui possa aparecer aí também em algum momento. Espero que a lua seja um farol pra você em qualquer lugar do mundo que você estiver. Espero que alguém ou alguma coisa te faça cosquinha e que encostar com carinho seja sempre um caminho possível. Eu quero que saiba que eu me vejo em você, seja lá quem você for, apesar de não te ver agora, de não ter te visto nunca, de não nos vermos há um tempo ou mesmo de ter te abraçado ontem. Que, de alguma forma, em alguma frequência (de rádio ou de nave espacial), eu te sinto em mim; eu posso ouvir algumas bolhas estourando aqui dentro. Quero que saiba também que eu sinto saudade de tudo que não conheço e dos lugares que nunca visitei. E que me dá água na boca só de saber da existência de ouvidos atentos pelos quais minha voz escorregou um pouquinho.

To te enviando também alguns pedacinhos de paz que os meus olhos alcançaram.

Um cheiro!


 

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