Promete?


 

Jundiaí, 13 de outubro de 2020

Escrevo essa carta pensando que precisamos estar juntos, ainda que seja pra contar o ordinário dos dias - que consiste em novas rachaduras nas cutículas, nos desarquivamentos de algumas caixas de traumas antigos e na saudade de um tempo que nunca existiu: saudade do futuro. 

Tenho estado mais melancólica e com preguiça da terapia... Tem sido difícil continuar por mim, então penso em continuar por nós - grupo, espécie, pacto coletivo de sobrevivência, nesse mundo de tanta doença mental...

Para o ordinário dos dias, tenho tido alguma força, ou alguma sorte, deve ser a tal da resistência: só na menor parte dos dias meus demônios me vencem - mas confesso que me cansa um pouco quando são dias seguidos.

Tenho visto a vida de um jeito dolorido e estado um pouco dramática, mas estou firme. Com certeza já estive pior em tempos mais fáceis, então talvez esteja crescendo. Talvez estejamos todos crescendo e pela primeira vez estejamos nos olhando o suficiente para enxergar o processo...

Desejo o bem e que na maioria dos dias vençamos nossos demônios, mas que não desanimemos nos dias em que não os vencermos - sempre há mais um dia e no amanhã sempre se é mais forte. Não duvidem nunca da sua força, nem da coragem, mas avaliem o conselhos do medo, ele evoluiu conosco enquanto espécie.

Tem sido difícil estar perto - perto dos outros, perto de mim, perto do que sinto de verdade, perto de qualquer coisa mais verdadeira que esse isolamento que tem se imposto a quem ainda acredita que somos mais que números... Sigo com uma vontade gigante de abraçar e ser abraçada, com uma vontade gigante de encontrar o outro e de me perder em estradas que levam ao outro - a outros "outros", nesse fluxo lindo que é o conhecer, vida afora. 

O perto é um paradoxo, que chama e repele. Queremos os corpos perto, mas continuaremos a olhar pelos olhos dos celulares? Que faremos dos corações, finalmente estando lado a lado? Estamos prontos para essa ponte, estando tão desligados de nós mesmos?

Eu queria tentar, o lado a lado, de coração perto. Tentar o abraço. Mas enquanto a alma não estiver pronta e empática, não faz nem sentido: alguma coisa muito maior é ruptura... E é algo ainda maior que a ruptura que, ao escrever meus textos e essa carta, tento estabelecer. Não sei expressar algo tão grande, talvez seja o derradeiro abraço ou a ponte sobre os múltiplos abismos, algo que nos una para além de nossa história de separação, para além da perpetuação das hierarquias e opressões, para além de tudo o que causou inequidade e dor. 

Repito: eu queria tentar, o lado a lado, de coração perto. Tentar o abraço. De todos com todos, respeitando as histórias de dor e tratando as feridas juntos, enquanto humanidade. Juntos. Promete que tenta também?


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