Por mais que eu quisesse...



Salvador, 02 de novembro de 2020

Foi enquanto você falava da bicicleta. Do aro, da roda, da catraca, ou algo assim... Foi neste instante que a verdade me atingiu em cheio, como uma epifania. Eu amava você.

Mesmo que eu chamasse de amizade – colorida ou em preto e branco. Mesmo que a palavra amor assustasse. Ainda que eu não estivesse apaixonada.

E, assim, em meio à narrativa sobre problemas mecânicos – que, aliás, eu poderia ouvir por mais meia hora, sem que as ondas melodiosas da sua voz perdessem a graça – foi aí que eu refleti:

Sobre seus dilemas, suas conversas, suas piadas idiotas, as polêmicas, seguidas de posicionamentos irrepreensíveis. Sobre qualquer coisa... eu refleti sobre qualquer coisa, assim, de você, em mim, me fazendo tempestade. Qualquer coisa que me bastava, que me sentia, que me fazia e me doía. E dói.

Pensei em você e nas suas placas de “pare”, que eu lia “siga”. E na sua areia movediça, na qual eu plantava como se fosse massapê.

Pensei nos meninos tentando alcançar o lugar que você ocupava – sendo que você nem queria estar lá. Os ummetroenoventaepoucos deles não davam pé, para alcançar o pedestal no qual eu te coloquei. E a cor da pele – igual à sua, ainda que em diferentes tons – não reluzia a mesma intensidade em meus olhos, refletindo o sol do final de tarde.

Mesmo que você fosse terra seca, eu queria te fazer oásis, em meio ao seu deserto de traumas. Ainda que houvesse “várias queixas de você” ... a gente continuava “junto e misturado” e eu sonhava acordada com a ideia irreal de você ser... você sabe.

Mas aí, nenhum deles tinha chance, percebe? Aqueles meninos... E eu também não. Não enquanto você ainda estivesse aí – ou aqui dentro: no centro do meu mar revolto de sentimentos.

Eu não podia ficar, meu bem, por mais que eu quisesse.

Tinha que dizer adeus. Ou até breve, quem sabe...

Ass: Mine

Ps: Brigitte vai sentir sua falta, parece que ela não se acostuma com mais ninguém.
 

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