Para Marina.



Jundiaí, 21 de Outubro de 2020

Marina,

Estou escrevendo essa carta pra conversar, naquele nosso jeito de conversar em que uma fala muito e depois a outra fala muito, naquelas nossas conversas demoradas em que já temos o que vamos contar com começo, meio, digressões e nunca tem fim, a gente vai se organizando pras duas falarem e nunca acaba, isso há 16 anos...

Nesses anos, foi a gente e alguém da Crisma, a gente e alguém do ballet, a gente e alguém do trabalho, a gente e a Paula, a gente e a Tallita, mas sempre foi a gente - e foi muitas vezes a gente.

A gente sempre fala que, a cada afastamento, a vida nos devolve uma pra outra. Quando fiquei sabendo que você ia cursar farmácia, soltei um "já pensou se a gente trabalha junto?". Acho que um anjo disse amém... E a gente realmente trabalhou, a gente sentou lado a lado por um ano, igual carteira de escola, de uniforme da firma e tudo!

Acostumei de novo a ter você no meu dia-a-dia. Acho que você se acostumou comigo também... Era engraçado você dormindo no fretado e eu batendo meus textos no bloco de notas, como também hoje te bato essa carta. Em um dos dias, eu peguei o celular, comecei a escrever e, quando chegamos pra tomar café, já estava até postado um texto... Você me perguntou como é que escrevi tão rápido e me peguei pensando nisso esses dias: nunca escrevi rápido, porque escrever começa na vivência. Digitei o texto em vinte minutos, mas levei os vinte e seis anos que tinha na época para formar tudo o que estava ali. É um processo, como você sabe que as coisas são pra mim: um processo que nunca se acaba, só se ramifica - como são nossos caminhos juntas, em todos esses anos.

Esse ano, quando fomos separadas circunstancialmente, tive medo de perder o contato, quase como se a vida não fosse dar jeito nisso. Mas a vida nos deu a ciência e as visões alinhadas. A vida nos deu a arte e amo ver você cantar. A vida nos deu nossa história entrelaçada. A vida nos deu a vontade de ter voz e de nos posicionar. A vida me deu essa vontade de escrever e ficar feliz a cada vez que você acompanha meus posts.

Essa carta é pra lembrar da nossa história, que a gente nunca vai parar de construir, porque já está entranhada no nosso ser. E é lindo me sentir parte. Você vai me falar umas coisas boas dessa carta, que gosta do meu jeito fora do padrão de ser sensível, essas coisas lindas que você me fala e eu finjo que não me emociono... Se, em algum momento, passar pela sua cabeça a ideia de retribuir, cante. Não cante pra mim, cante pro Mundo... Ou dance, dance pro Universo. Viva sua arte, que é sua essência, e ela vai perfumar o mundo inteiro!

Sinto sua falta, ainda que a certeza de você nunca me falte!

Com amor, muito mesmo!
Gabi.

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