Por mais que eu quisesse...



Salvador, 02 de novembro de 2020

Foi enquanto você falava da bicicleta. Do aro, da roda, da catraca, ou algo assim... Foi neste instante que a verdade me atingiu em cheio, como uma epifania. Eu amava você.

Mesmo que eu chamasse de amizade – colorida ou em preto e branco. Mesmo que a palavra amor assustasse. Ainda que eu não estivesse apaixonada.

E, assim, em meio à narrativa sobre problemas mecânicos – que, aliás, eu poderia ouvir por mais meia hora, sem que as ondas melodiosas da sua voz perdessem a graça – foi aí que eu refleti:

Sobre seus dilemas, suas conversas, suas piadas idiotas, as polêmicas, seguidas de posicionamentos irrepreensíveis. Sobre qualquer coisa... eu refleti sobre qualquer coisa, assim, de você, em mim, me fazendo tempestade. Qualquer coisa que me bastava, que me sentia, que me fazia e me doía. E dói.

Pensei em você e nas suas placas de “pare”, que eu lia “siga”. E na sua areia movediça, na qual eu plantava como se fosse massapê.

Pensei nos meninos tentando alcançar o lugar que você ocupava – sendo que você nem queria estar lá. Os ummetroenoventaepoucos deles não davam pé, para alcançar o pedestal no qual eu te coloquei. E a cor da pele – igual à sua, ainda que em diferentes tons – não reluzia a mesma intensidade em meus olhos, refletindo o sol do final de tarde.

Mesmo que você fosse terra seca, eu queria te fazer oásis, em meio ao seu deserto de traumas. Ainda que houvesse “várias queixas de você” ... a gente continuava “junto e misturado” e eu sonhava acordada com a ideia irreal de você ser... você sabe.

Mas aí, nenhum deles tinha chance, percebe? Aqueles meninos... E eu também não. Não enquanto você ainda estivesse aí – ou aqui dentro: no centro do meu mar revolto de sentimentos.

Eu não podia ficar, meu bem, por mais que eu quisesse.

Tinha que dizer adeus. Ou até breve, quem sabe...

Ass: Mine

Ps: Brigitte vai sentir sua falta, parece que ela não se acostuma com mais ninguém.
 

Para Marina.



Jundiaí, 21 de Outubro de 2020

Marina,

Estou escrevendo essa carta pra conversar, naquele nosso jeito de conversar em que uma fala muito e depois a outra fala muito, naquelas nossas conversas demoradas em que já temos o que vamos contar com começo, meio, digressões e nunca tem fim, a gente vai se organizando pras duas falarem e nunca acaba, isso há 16 anos...

Nesses anos, foi a gente e alguém da Crisma, a gente e alguém do ballet, a gente e alguém do trabalho, a gente e a Paula, a gente e a Tallita, mas sempre foi a gente - e foi muitas vezes a gente.

A gente sempre fala que, a cada afastamento, a vida nos devolve uma pra outra. Quando fiquei sabendo que você ia cursar farmácia, soltei um "já pensou se a gente trabalha junto?". Acho que um anjo disse amém... E a gente realmente trabalhou, a gente sentou lado a lado por um ano, igual carteira de escola, de uniforme da firma e tudo!

Acostumei de novo a ter você no meu dia-a-dia. Acho que você se acostumou comigo também... Era engraçado você dormindo no fretado e eu batendo meus textos no bloco de notas, como também hoje te bato essa carta. Em um dos dias, eu peguei o celular, comecei a escrever e, quando chegamos pra tomar café, já estava até postado um texto... Você me perguntou como é que escrevi tão rápido e me peguei pensando nisso esses dias: nunca escrevi rápido, porque escrever começa na vivência. Digitei o texto em vinte minutos, mas levei os vinte e seis anos que tinha na época para formar tudo o que estava ali. É um processo, como você sabe que as coisas são pra mim: um processo que nunca se acaba, só se ramifica - como são nossos caminhos juntas, em todos esses anos.

Esse ano, quando fomos separadas circunstancialmente, tive medo de perder o contato, quase como se a vida não fosse dar jeito nisso. Mas a vida nos deu a ciência e as visões alinhadas. A vida nos deu a arte e amo ver você cantar. A vida nos deu nossa história entrelaçada. A vida nos deu a vontade de ter voz e de nos posicionar. A vida me deu essa vontade de escrever e ficar feliz a cada vez que você acompanha meus posts.

Essa carta é pra lembrar da nossa história, que a gente nunca vai parar de construir, porque já está entranhada no nosso ser. E é lindo me sentir parte. Você vai me falar umas coisas boas dessa carta, que gosta do meu jeito fora do padrão de ser sensível, essas coisas lindas que você me fala e eu finjo que não me emociono... Se, em algum momento, passar pela sua cabeça a ideia de retribuir, cante. Não cante pra mim, cante pro Mundo... Ou dance, dance pro Universo. Viva sua arte, que é sua essência, e ela vai perfumar o mundo inteiro!

Sinto sua falta, ainda que a certeza de você nunca me falte!

Com amor, muito mesmo!
Gabi.

Benzinho.


Salvador, novembro de 2020

Benzinho,

Pensei em você hoje. De novo. Tenho pensado muito em você. De diversas formas, por diversas razões: às vezes eu acordo pensando em você, às vezes sonho com você e às vezes, sei lá, uma música me traz o seu nome e o seu rosto.Uma saudade tão esquisita do seu gosto, do seu toque, de coisas que a gente nem viveu.

E eu penso: me lasquei!

Eu tô completamente perdida, nas mãos de uma pessoa que não faz absolutamente nenhuma questão de me ter nas mãos. É complexo.
Eu te escrevo porque... Eu escrevo.
Mas no fundo eu não tenho nada pra te dizer.
E tem muita coisa que eu queria te dizer.
Eu quero profundamente e, ao mesmo tempo, é absurdo querer.
É bem confuso mesmo. E eu já falei sobre essa confusão com você, com as minhas amigas... Porque não tenho o que querer.
Outras vezes eu tenho quase certeza de que não importa quantas coisas eu pudesse fazer: eu ia preferir estar com você.
Às vezes eu acho que é só porque eu tô aqui, presa. Porque as possibilidades estão todas em pausa. Te mando um beijo. Alguns. Te desejo paz. Que seus dias estejam sendo bons. Os meus, às vezes, estão.
E, sei lá, que de vez em quando, mesmo sem querer, mesmo por alguns segundos, mesmo que raramente, você também pense em mim

Promete?


 

Jundiaí, 13 de outubro de 2020

Escrevo essa carta pensando que precisamos estar juntos, ainda que seja pra contar o ordinário dos dias - que consiste em novas rachaduras nas cutículas, nos desarquivamentos de algumas caixas de traumas antigos e na saudade de um tempo que nunca existiu: saudade do futuro. 

Tenho estado mais melancólica e com preguiça da terapia... Tem sido difícil continuar por mim, então penso em continuar por nós - grupo, espécie, pacto coletivo de sobrevivência, nesse mundo de tanta doença mental...

Para o ordinário dos dias, tenho tido alguma força, ou alguma sorte, deve ser a tal da resistência: só na menor parte dos dias meus demônios me vencem - mas confesso que me cansa um pouco quando são dias seguidos.

Tenho visto a vida de um jeito dolorido e estado um pouco dramática, mas estou firme. Com certeza já estive pior em tempos mais fáceis, então talvez esteja crescendo. Talvez estejamos todos crescendo e pela primeira vez estejamos nos olhando o suficiente para enxergar o processo...

Desejo o bem e que na maioria dos dias vençamos nossos demônios, mas que não desanimemos nos dias em que não os vencermos - sempre há mais um dia e no amanhã sempre se é mais forte. Não duvidem nunca da sua força, nem da coragem, mas avaliem o conselhos do medo, ele evoluiu conosco enquanto espécie.

Tem sido difícil estar perto - perto dos outros, perto de mim, perto do que sinto de verdade, perto de qualquer coisa mais verdadeira que esse isolamento que tem se imposto a quem ainda acredita que somos mais que números... Sigo com uma vontade gigante de abraçar e ser abraçada, com uma vontade gigante de encontrar o outro e de me perder em estradas que levam ao outro - a outros "outros", nesse fluxo lindo que é o conhecer, vida afora. 

O perto é um paradoxo, que chama e repele. Queremos os corpos perto, mas continuaremos a olhar pelos olhos dos celulares? Que faremos dos corações, finalmente estando lado a lado? Estamos prontos para essa ponte, estando tão desligados de nós mesmos?

Eu queria tentar, o lado a lado, de coração perto. Tentar o abraço. Mas enquanto a alma não estiver pronta e empática, não faz nem sentido: alguma coisa muito maior é ruptura... E é algo ainda maior que a ruptura que, ao escrever meus textos e essa carta, tento estabelecer. Não sei expressar algo tão grande, talvez seja o derradeiro abraço ou a ponte sobre os múltiplos abismos, algo que nos una para além de nossa história de separação, para além da perpetuação das hierarquias e opressões, para além de tudo o que causou inequidade e dor. 

Repito: eu queria tentar, o lado a lado, de coração perto. Tentar o abraço. De todos com todos, respeitando as histórias de dor e tratando as feridas juntos, enquanto humanidade. Juntos. Promete que tenta também?


Remetente