Sobre os dias.




São Paulo, agosto de 2020

Estou tentando me adaptar a essa velha nova rotina. Ainda não consegui cumprir a promessa de acordar às 6 da manhã e aproveitar melhor a vida.

Mais uma vez perdi aquela brisa fresquinha, o musical dos passarinhos no quintal, o espetáculo de cores do amanhecer... O que me acalenta é saber que amanhã eles estarão de volta no mesmo horário. É só uma questão de eu me organizar.

Passo a tarde listando atividades que eu poderia fazer para me ocupar entre um trabalho e outro. Estou na fase de preparação da quarentena, embora ela tenha chegado faz tempo, para muitos já tenha acabado e para alguns nem tenha existido.

Gosto de fazer coisas aleatórias também: sento no sofá da sala, ligo o rádio e fico curtindo abraçadinha com a minha solidão. Como a música pode entrar assim tão fácil na casa das pessoas? Não precisa de máscara, sabão, álcool em gel, nem qualquer tipo de proteção. Algumas canções entram de fininho pela porta do coração e se tornam grandes amigas.

Observo as plantas no quintal, as flores, o vento, tudo continua em movimento. As formiguinhas nunca pararam de trabalhar. O céu está mais azul ou é impressão minha? Tanta coisa bonita para admirar aqui fora. Algumas lágrimas escorrem pelo meu rosto e criam uma pequena poça d’água debaixo dos meus pés.

Eu deveria colocar um vestido florido e passear com os cactos e as suculentas. A gente podia fazer uma sessão de fotos e brincar de primavera. Nesses dias difíceis, eu me esqueço que eu também sou planta, natureza, bicho. Estou na fase de hibernar. O inverno chegou um pouco mais cedo esse ano e não tem data para acabar.

Há de haver beleza em todas as estações. Eu precisava de uma pausa para conhecer as minhas outras versões. Não dá para ser verão o tempo todo. Eu sei. Eu tentei.

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