Será mesmo?



Rio, abril de 2019

Ontem você me pediu uns documentos e entre um pdf e outro disse resolveu dizer que ainda me ama. 

Mas, será mesmo?

Num cantinho da tua alma, em algum poro do teu corpo, é possível que ainda haja resquícios desse amor? Do amor que tinha meu sobrenome? Na sua nuca, seu pescoço, escondido atrás da sua orelha, um amor tão pequeno que acabou recolhido num milímetro quadrado de pele. Não aparece na foto. Não tem relevo. Não tem cor. Será mesmo?

Não parece, mas talvez você ame, sim, um pedacinho de mim. Uma curva do meu corpo, a voltinha do meu umbigo, a minha orelha mais pontuda. Uma, duas, não mais que três das milhares de pintas que brotam no meu colo -- e se multiplicam a cada ano. Um amor tão pequeno que acabou irrelevante, incapaz de cobrir a ponta de um alfinete. Não espeta. Não marca. Não sangra.

Será mesmo? Porque sinceramente não parece.

Talvez você ame uma ideia sua, um fantasma meu. Algo que eu fui quando não sabia bem quem eu era. Você não ama quem eu finalmente me tornei depois que me descobri. Não ama quem eu sempre fui, mesmo quando ainda não era capaz de me explicar. Quando me faltavam as palavras e o adequado arranjo entre elas. Quando tantos saberes se ausentavam que minhas angústias não encontravam alternativa, a não ser preencher todas as nossas conversas.

Talvez você ame, sim, partes, pequenas partes de mim. O meu silêncio. O meu sussurro. O meu gemido. Talvez você ame os barulhos que eu não faço mais. O gozo e o grito das certezas burras que eu abandonei. Talvez ame meus muros mais estúpidos, e odeie minhas janelas mais brilhantes -- aquelas com vidros rachados.

Talvez você só tenha sido capaz de amar meu calor até certa temperatura. E quando o incêndio começou, você foi lá e tentou contê-lo com as próprias mãos. Me culpou por suas queimaduras. Não quis aprender a arder comigo.

Nunca entendeu que casa não é conceito formado por tijolos. Casa é corpo, é mente, é alma -- e agora que eu finalmente sei meu endereço, sigo te procurando aqui dentro, mas não te encontro.

Será que você se encontra? Em alguma parte do seu corpo? Será que ficou tão pequeno que cabe também num pedacinho da sua nuca, seu pescoço, atrás da sua orelha? Enquanto o resto do seu corpo carece eternamente de você?

A gente podia se encontrar no meio e trocar descobertas, e aprendizados, e beijos, e lavar a roupa, e fazer amor, e pagar as contas, e abraçar os filhos, e resolver os problemas, e cozinhar a comida, e dividir as tarefas, e fazer a faxina (e amor).

Podia. Mas, paciência. Tanta coisa ainda podíamos aprender juntos, mas é seu direito estar mais interessado em saber sozinho tudo o que você já sabe -- ou pensa que sabe.

Porque no fundo, eu sei... Você não me ama. Você ama o desejo que guardou de mim. Ama o molde que você tanto insistiu que eu preenchesse -- e eu tentei preencher, eu juro (por você, eu tentei), mas o problema é que eu sempre transbordava. E o que transborda em mim é justamente o que você mais despreza. É a “sujeira” que te faz me acordar no meio da noite para limpar o seu impecável chão.

Eu não sei se fui eu que cresci ou se, ao longo dos anos, seu precioso molde encolheu.

De um jeito ou de outro, sinto muito (sinto mesmo)...

Vim aqui te dizer…
Que não vai dar…
Pra ser menor…
Por você.

Mas você ainda me ama.

Será mesmo?

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