Para Zé.


 


Salvador, junho de 2020

Querido Zé,

Sim, eu vou te chamar de Zé. A ideia dessa carta chegar em mãos que não sejam as suas, me causa um pouquinho de taquicardia. Já é um passo muito grande eu estar dizendo essas coisas. Imagina se mais alguém fica sabendo? Por isso, um codinome, igual o Cazuza fez. E eu escolhi Zé, porque quase sempre tem um João pra achar que eu tô falando com ele. Mas eu tô falando com você. É importante que isso fique evidente.

Sabe, Zé, eu nunca encostei na tua mão, mas de vez em quando eu me pego acreditando que teu toque deve ser bem levinho. Não sei explicar. E penso também na gente andando pela praia, descalços, de mãos dadas, escolhendo ser piegas, somente porque podemos. Porque finalmente podemos.

Durante esses devaneios você está sempre usando aquela sua camisa azul, de botão, e vestindo um olhar extremamente maravilhado. Não por mim, muito embora a fantasia seja minha e eu pudesse imaginar isso sem pudor algum: você, assim, maravilhado pelas minhas cores.

Mas não, você olha para o céu, pra a barraquinha de acarajé, pra as mesinhas amarelas dos botecos organizadas na calçada, pra as nossas pegadas na areia. Isso tudo que indica que o mundo voltou a acontecer tranquilamente, com a mesma pressa absurda de antes.

Zé, eu me apaixonei pelo som da sua voz. E pelo modo com que você frequenta os meus pensamentos. Eu te lembro e instantaneamente tudo parece estar bem. Acho que isso é o equivalente à sensação de um primeiro beijo. Sei lá.

Nesses dias de solidão forçada, eu gosto de fumar alguns cigarros encostada na janela, admirando uma lua que não é minha, mas imagino que será nossa algum dia. Minha e sua, sabe? Como nas poesias.

Eu gosto de sentir o que sinto quando penso em você. É que são tempos tão difíceis, com tudo meio escuro e frio... parece mágico ter um nome pra aquecer o coração. Desejo o fim dos tempos sombrios, só pra que eu possa, enfim, descansar minha ansiedade no teu abraço. Um dia, quem sabe. Espero mesmo poder te encontrar em breve pra a gente cantar aquele refrão. E todos os que virão.

PS: Eu gosto muito de você.

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