Para Wendel.



Vitória da Conquista, outubro de 2020


Amigo,

 

Quando recebi tua carta, depois de reler uma porção de vezes, fiquei parada fazendo um filme com todas as tuas frases. Foi aí que descobri que você combina muito com aquelas montagens europeias, onde o cotidiano não corre porque todas as coisas descobrem que o tempo de ser é nenhum que não aquele onde conseguimos chegar. E você chega tão bonito, que mesmo sem estar preparada te recebi com suaves confetes de enfeitar o riso.

 

Coincidência ou não, quando você chegou eu tinha acabado de começar a ler o meu primeiro livro de Adélia, muito por sua causa. Porque você tem esse jeito mineiro de ser casado com a poesia. Ali você falava sobre tentar desviar dos caminhos contrários e me fez pensar que, nesses dias de clausura, tive muito medo de não saber mais andar. Antes disso tudo acontecer eu nem enxergava direito o depois, Wendel. O foco era tentar me equilibrar, nem percebia que rondava por aí me sentindo programada, como se minhas decisões fossem consequência da falta de habilidade de segurar o guidom da minha própria vida. Depois teve um dia besta, como a grande maioria dos dias, eu tava quieta no meu canto e me iluminou a certeza mais certa que eu já tive. Acendi um incenso de jasmim e perfumei meus próximos passos. Você acredita, amigo, que com o mundo todo doido do jeito que tá, calhou de me acontecer justo agora um movimento enorme de carinho da vida? Eu acho que mereço, até. 

 

Ando lendo muito, descontrolada. De vez em quando lembro da tua estante e da visita que te prometi, com bolo e palavra, porque a gente escreve e se alimenta de livro, mas eita que um docim na boca faz bem, né? Você falava sobre domar os impulsos. Uma vez li que os impulsos são como bolhas de sabão, se você não seguir no momento em que elas passam, elas estouram na sua frente. Foi no livro “Confissões de Adolescente”, o que me surpreende, porque faz mais de vinte anos que li — e reli até decorar, pelo visto. Fora que a série que passava àquele tempo na TV Cultura é até hoje uma das minhas preferidas. Mas enfim, essa frase é dita por Domingos de Oliveira a sua filha, Maria Mariana (autora do livro/que também é diário). Amigo, escrevendo eu falo pra caralho, igual Caio F. Sempre me prometo que vou fazer uma carta de no máximo dois minutos e quando vejo queimei todos os tempos. Isso tudo pra te dizer que existem impulsos muito pontuais, que devem ser agarrados. Depois que passa, aquela intuição de ser não volta. E se não for pro bem, perdoe. Se abrace. Geralmente somos nós mesmos os nossos principais tiranizadores. Tudo é aprendizado. Dá sempre tempo de corrigir, pode acreditar. É daí que eu acho que vem a sabedoria.

 

Enquanto te escrevia essa resposta, guardei no rolo câmera um por de sol a cada dia. Penso que para pessoas como você, os únicos presentes que merecem ser entregues são esses assim: um por do sol, um som de passarinho, um cheiro de livro novo, café passado por vó, um pedaço de céu do outono, um sorriso de uma criança banguela, uma conversa lenta na beira do fogão à lenha, um desenho de nuvem, manga chupada direto do pé debaixo da sombra, pés descalços na roça, gargalhadas que traduzem quem é feliz de verdade e, sim, um abraço cheio de asas. Como aquele que te entreguei. E me lembro muito porque foi exatamente esse o efeito que uma poesia tua causou em mim. Foi um impulso, amigo. Para um voo de encontrar-se. E muito atentos que somos aos manoelismos, é assim que a gente se terapeuta, encontrando um bocadim de azul nas horas todas.

 

Eu sinto tudo esperançar quando você escreve, Wendel. Não vivemos tempos de abraços, mas somos, nós dois, nascidos dentro de um berço que fazia aquele balanço de amor-demais. A gente entrega é cafuné, xodó e muito dengo. Deixo aqui agora pra você exagerar depois. 

 

Attraversiamo, amigo. 

 

Um monte de carinho meu,

Jaya.

 

P.s.: não lembro se você já assistiu “Master of None”. Assista (pela primeira vez ou mais uma vez). Nem é só porque amo a Itália e macarrão, mas porque retrata a nossa sede de nos buscarmos. Às vezes fugimos sem nem sabermos que estamos fazendo o caminho de volta para dentro de nós mesmos. Uma sorte.

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