Para vó Elena.




Brasília, maio de 2020

Bença, vó Elena.

Estava deitada na rede ouvindo Leandro e Leonardo e os olhos marejaram um pouquinho. Lembrei que na sala da sua casa tem um quadro deles, bem antiguinho e já empoeirado. Fique meio nostálgica, sabe? Só que as lágrimas vieram pela saudade daquele tempo bom, da infância tão bonita que tive e dos meus pés descalços descendo rumo do Pucumã para tomar banho com outras crianças. Lembro da liberdade de ir e vir.

Eu tenho sentido muita saudade de viver. Acho que esse tempo enclausurada está me fazendo refletir sobre minha vida e o que espero dela. Eu sinto falta da rotina, sabe? Agora que estamos todos em casa parece que há várias lacunas dentro de mim. Acho que a verdade é que a minha correria mantém minha mente cheia e me dá uma falsa ideia de contentamento. Acho que aprendi a viver no automático e tenho pensado que não é dessa maneira que quero terminar os meus dias.

Às vezes eu penso que quero estar aqui na cidade grande, mas ao mesmo tempo eu sinto que meu coração é do interior. Sou tão feliz aí, vó. Porque estando por aí eu deixo de ser meus títulos acadêmicos, a escritora e passo a ser somente eu. Aí eu sou a neta da Elena e do Dureis. A filha da Ivelta e do Jesus. Aí eu me sento na calçada, leio um livro e vejo o trânsito das pessoas indo e vindo. Cumprimento todos falando: obaa! Ninguém cumprimenta assim por aqui.

Estar presa dentro de casa me faz pensar na vida triste do passarinho engaiolado. Ele que tem o céu inteiro para desbravar é preso por alguém e é obrigado a viver ali dentro sem saber de tudo que a vida tem para oferecer. Tenho pensado que aqui não é o meu lugar e que talvez eu queira um céu azulzinho para mim também. Sei lá. Não sei se são os efeitos da quarentena, mas não estar na presença de meus amigos, não seguir a minha rotina, me faz questionar se eu vivo ou somente sobrevivo os meus dias. Acho que tenho preenchido a minha vida com aquilo que não tenho controle. Afinal, as pessoas vêm e vão. E nós sempre ficamos.

Com amor e muita saudade de sua neta, 

Pâmela.

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