Para Môni.




Vitória da Conquista, junho de 2020

Môni,

Esses dias tu me marcou numa foto de uma das cartas que a gente trocava quando eu ainda morava em Roraima. Fui atrás da minha caixinha de palavras e tu tava lá. Li algumas e fui sentindo saudades daquele tempo onde a gente carregava esse hábito de sentar e pensar no outro e carregar no papel o máximo de presença que a gente conseguisse. A gente escrevia tanto, nera? Cartas, e-mails. Aí hoje eu decidi falar contigo assim, por aqui, pra tu ouvir um pouco minha voz já que tenho esse pânico de telefone. Há alguns anos a gente tá mais perto, mas agora a gente tá longe de novo.

Tava pensando que em fevereiro eu disse que ia passar a semana santa com vocês. Eu já tinha criado toda aquela expectativa feliz de sempre quando pego a estrada pra chegar aí. Ia ter o vatapá de minha tia, resenha com minha cara pela lembrança imortal da vodca que me derrubou, cachacinha, gritaria das meninas, música e um monte de abraço. Eu e tu, coladas. Tô tão precisada desse teu colo, nega. Ave Maria, ultimamente tem sido tanta pancada.

Aqui a cidade abriu o comércio, relaxando uma quarentena que nunca existiu. Sei que Jequié tá ainda mais foda, com toque de recolher e tudo. Imaginar tu trabalhando no hospital já me tirou o sono algumas noites, principalmente no dia que tu ficou doente. Todo dia eu peço aos deuses pela saúde de vocês, que nem peço pela minha galera lá em Boa Vista. Continuem se cuidando, por favor. E fica forte daí pra eu não endoidar daqui. Essa semana que passou travei várias lutas internas com a ansiedade. Fico tentando me distrair mas depois de tanto tempo até a distração já virou rotina, sabe? Às vezes deito na sala e Bingo fica esquentando meus pés enquanto Pedro toca alguma coisa no piano e eu quase consigo sentir alguma paz. Por aí tá sendo como?

Junho chegou e é claro que eu automaticamente lamentei, de novo, não poder estar com vocês. São João só pode ser aí, com nossa fogueira, meu tio na sanfona e a gente se esquentando antes de descer pra praça e ser feliz com aquele forró e cheiro de quentão. Ou até fazer tanta festa desde de manhã e não ter condições de ir pra rua de noite, tu lembra? A gente tem tanta história. Tu é dos personagens centrais da minha vida. Tá sendo estranho passar por essa pandemia sem poder ir aí te pedir socorro em silêncio.

Eu tenho pensado tanto, Môni. Tenho feito uns planos corajosos, tenho enxergado jeito diferentes de viver, tenho até sonhado, mas... Como é que vai ser de verdade depois que isso passar? Quem vai dar conta do mundo? Eu queria acreditar que vai ser melhor. Mas nunca foi, né? É muita coisa. Eu sei. Tu sabe. A gente vive as mesmas aflições. Eu só queria mesmo é dizer que tô com saudades. De Malu, Helena, tia Lourdes, tio Eden, Elias, Ivo, Rosa, Cecília, Clarice, Isadora. De como sou recebida aí. De como tu me acolhe e me ensina sobre amor enquanto sorri pra mim. Eu sinto falta de como já foi. E eu quero recuperar tudo o que tem ficado pelo caminho.

Dá um beijo em todo mundo. Eu amo você. Desde sempre. Pra sempre

Fica feliz, viu?

Jaya

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