Para mainha.



Salvador, maio de 2020

Oi, Mainha.

Te escrevo porque tenho saudade. Mas também porque em momentos como esse, em que o mundo parece tão denso, eu só consigo pensar no seu colo.

Sei que são quase dez anos vivendo essa distância e que já precisamos enfrentar temos maiores sem encontros. Mas é a incerteza que me pega de jeito, sabe? Até quando e de que forma passaremos por tudo isso?

Nos últimos dias eu tenho sentido tudo com mais intensidade. E ao mesmo tempo. Tento fazer, por mim, o que eu acho que você faria se estivesse aqui. Lembra quando eu era criança e você cozinhava pra me fazer parar de chorar? Pois eis-me aqui: testando todas as receitas, na esperança de reproduzir o conforto do teu tempero de mãe. Não tem funcionado como antes.

E me dá uma aflição danada, mainha, perceber que o mundo está em pausa, mas a vida não, sabe? Eu fico acompanhando os dias passarem, um a um, devagarzinho, e vejo que a vida continua a acontecer sem que eu também possa.

Fico colecionando as horas em que não posso estar ao lado daqueles que eu quero bem. E aí, repito o mantra: resgato memórias, potencializo sentimentos, limpo a casa, invento festas na minha cabeça, revejo as dores às quais nunca dei tanta atenção, faço planos, desisto, faço uma outra faxina, recomeço. Tenho certeza de que sairei diferente desse retiro espiritual forçado. Eu só não sei bem o que é que vai mudar. Dá um medo, mainha...

Às vezes, eu choro, sozinha, esperneando no meu quarto e esperando que alguém me pegue nos braços e diga que tudo isso vai passar. No fim das contas, eu queria estar escondida no seu abraço.

Me conforta saber que o seu rosto está entre os últimos que eu pude ver de pertinho, antes que estar perto fosse tão perigoso.

Minha última memória doce, envolve o som da sua gargalhada e seu olhar de "admiração preocupada", com as bobagens que eu tinha pra falar. São sempre tantas, né?

Esses dias, tenho passado horas olhando pela janela. O céu é tão bonito...

Por falar nisso, todo dia vejo uma senhora debruçada na janela, com um terço, em oração. Tu que me ensinou a rezar e sabe que eu não levo muito jeito pra pedir as coisas pra ninguém (nem mesmo  divindades). Pois tenho acompanhado a oração dessa senhora todas as manhãs, e peço que o universo permita que você  sinta o meu amor, mesmo de longe. 

A minha esperança é saber que você está aí. E eu, daqui, vou fazendo pequenos "jogos do contente" e acreditando, cegamente,  que mal algum nos quebrará.

Busco ser forte, como você me ensinou. É só mais um perrengue, que a gente resolve em cinco minutos. Ainda que longos, dolorosos e confusos minutos.

Te sinto muito em tudo o que respiro, vejo e penso. E espero que não demoremos mais tanto sem o nosso abraço. Você, de longe, é o meu lugar seguro. Cuida daí, que eu vou cuidando daqui.

Em breve estaremos no mesmo sofá, brigando pelo controle remoto, até escolhermos o pior filme, selarmos um acordo silencioso de derrota mútua e adormecemos. Juntinhas. Como tem que ser. 

Te amo sempre.

Sua filha, 

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