Para Má.


Salvador, maio de 2020

Oi, Má. 

Hoje eu acordei com aquela música de Beirut na cabeça, Elephant Gun, sabe? A gostosinha que tocou em Capitu. Essa música me deixa cheia de nostalgia e eu me peguei pensando em tu. Como é que você tá? Sentei na rede tem umas horas pra te escrever essa carta, mas fiquei imersa em passados e nuns chororô besta. 

Comecei a te escrever no dia 28 da quarentena. Tive que procurar no calendário, perdi a conta faz é tempo. Perdi os trabalhos no isolamento, também. Nesse intervalo de tempo todo tive umas crise bem doida, eu de cá e tu daí. Queria tá pertinho pra te abraçar e chorar junto, como se a gente tivesse 16 anos de novo, só que agora temos 27 e problemas de verdade na vida.

A última vez que a gente se viu foi no Carnaval. Lembro que saí da sua casa com uma rinite fudida por causa dos cigarros, mas se eu soubesse que o ano ia acabar logo depois eu tinha era fumado tudo junto contigo. 

Me diz, Cê tá se cuidando direitinho? Tu tem umas mania doida de comer só miojo e beber cerveja, né. To perguntando só pra garantir. Hoje eu bebi muito vinho, tem sido difícil ficar sóbria na quarentena. Água e café eu bebo todo dia, também. Mais café do que água. 

Eu tenho sentindo muita coisa estranha esses tempos. Desde ontem eu to meio coisada, tenho acordado e dormido bagunçada demais. Veio tudo junto: tpm, menstruação, ansiedade, gastrite e os juros do banco. Misericórdia, eu não aguento não. Tenho sentido muita dor no peito e uma falta de ar na garganta, quase. Acho doido como a ansiedade dá sinais claros que tá aqui, ó, gritando dentro da cabeça. 

Tive outro sinal desses hoje, mas esse era engraçado demais. Achei aquela foto polaroid de dezembro de 2016: eu e tu, abraçadas, em frente ao Elevador Lacerda. Tu lembra quando a gente chegou em Salvador? Duas meninas do interior na cidade grande. Nossas histórias sempre são doidas, parando pra pensar.

Entre alagar um apê, ser expulsa com 4 caixas e 2 malas de outro e ser jogada da escada pelo vizinho, eu acho que a gente até que aguentou o tranco, né? E vamo aguentar de novo, mesmo longe. Mesmo sozinhas. Mesmo isoladas. Vai passar, viu? Eu digo pra tu e repito pra mim. Essa carta eu só terminei no dia 53 da quarentena. Tá tudo muito doido aqui dentro. Mas eu te quero bem demais. Se cuida direitinho, viu? Não quero ter que ligar pra tua mãe em plena pandemia.

Um beijo em tu, em breve a gente se encontra num pôr do sol no Porto da Barra. E vive tudo que isso representa em nós.


 

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