Para Jair.

 



Vitória da Conquista, maio de 2020

Jair,

Minha intuição nunca mentiu. Sou assim, sempre sinto tudo nos primeiros contatos e quando vi sua cara na televisão pela primeira vez, fiquei muito enjoada. Já tinha ouvido falar de você, mas nunca tinha te visto, até você aparecer ali exaltando um torturador enquanto berrava vários nadas. Vi e até hoje lamento não conseguir desver. Foi golpe. Em mim, principalmente.

Os meses passaram e você ganhou espaço. Passaram, e você foi ficando. Passaram e em meio a torcidas pelo retorno da ditadura, você se candidatou ao mais alto cargo de um país engolido por uma sociedade adoecida. Militei, desesperada, sentindo pânico e muita ansiedade. Você passou a ser símbolo, Jair -- fascismo, machismo, homofobia, misoginia, racismo. Símbolos esses muito claros para quem já conseguia enxergar o que você nunca fez questão de esconder. Subimos a hashtag #elenão. Sentimos a democracia virar pó aos pouquinhos. E finalmente, vimos você ser eleito. Nesse dia, Jair, fodeu. Chorei pesado. Morreu um pedaço grande da minha crença no Brasil. Me decepcionei com um monte de gente, mas não soltei a mão daqueles que não desistiram. Continuamos em pé.

Entenda, Jair... Quer dizer, pedir que entenda é muito, me desculpe. Entender é um verbo complicado para quem tudo descomplica. Você já segue há um ano e meio ocupando o mais alto cargo do país e o desgoverno nunca foi tamanho. Não digo que avisei. Minto. Digo sim. Eu avisei pra caralho. Muitos dos seus eleitores hoje batem panela querendo te ver nocauteado. Os mais estúpidos ainda conseguem te apoiar. Quanto a mim? Eu só queria mesmo é que você nem tivesse chegado a existir.

Longe de mim, Jair, te tachar como louco, palhaço e tudo mais que tenho ouvido. Você não tem transtornos mentais aparentes e tampouco alguma simpatia pela arte, apesar de dar vários shows ruins a cada vez que aparece por aí. 

A gente já sacou qual é a sua, mas para nossa surpresa, parece que você sempre arruma uma nova maneira de piorar. São mais de 10 mil pessoas mortas, mas E DAÍ? Você é cruel e se sente confortável sendo. Você abre a boca e eu dou descarga.

Eu só queria, Jair, em plena pandemia, quarentena mundial, "lockdown" massacrante, me preocupar em doer essas dores. Elas sozinhas já somam mais do que podemos suportar. Queria então não ter que lidar, simultaneamente, com declarações monstruosas, projetinhos fascistas e discursinhos ordinários de quem não tem empatia alguma com a vida do próximo. Queria poder voltar a usar a camisa da seleção sem sentir vergonha ao ser confundida com alguém que te elegeu. Queria deitar um dia sabendk que você pelo menos ficará mudo e, por consequência, não incitará aqueles que ainda acreditam em você a seguir replicando o ridículo das suas ações. Torço para que você caia. Há de chegar a hora, é melhor Jair observando. Vai continuar tendo luta. Estamos aqui. Não dormimos no ponto, Jair. Acorda, você está ficando sozinho.

Talvez não seja necessário, mas gostaria de deixar claro: você não me representa. Em nada.


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