Para Isabel.



Boa Vista/RR, julho de 2020 

Oi, Isabel. 

Te escrevo pra cultivar o que temos construído. Antes de tudo, te agradeço por topar uma comunicação mais lenta, sabe? Eu realmente acredito que essa pandemia é um alerta da mãe terra, pedindo pra gente desacelerar. E pra mim essa é uma das formas de ir mais devagar e até uma forma de ser mais sincera nas minhas relações. Escrevendo cartas eu penso sobre o que eu quero falar, sobre os sentimentos que quero passar, sem imediatismo, sem pressões. Esses dias eu li uma matéria sobre estarmos viciados em tecnologia, e eu não duvidei não. Eu as vezes me pego muito ansiosa com tudo isso de internet e aparelhos tecnológicos. E eu uso muito, pra muitas coisas na vida, e quase todo mundo que eu conheço também usa muito. Agora durante a pandemia parece que a gente passou a existir muito mais online né? Isso as vezes me dá um ardor no estômago. 

Eu tento não passar tanto tempo online, mas ainda é como eu consigo manter algumas conexões com pessoas que eu aprecio e amo e que estão longe, principalmente depois que fui morar no Amazonas. E você tá aí agora né, no Amazonas. Sem a internet a gente talvez nem se conheceria. Já que foi por uma postagem no twitter que a gente começou a se falar. E eu descobri que você é professora de História, como eu. E que pesquisa História das Mulheres, como eu quis um dia e não deu pra continuar. Quero deixar explícita minha admiração por toda a luta que você e os demais professores vem fazendo na oposição da volta às aulas no Amazonas, a gente sabe que essa é só mais uma política genocida...colocar uma escola pra funcionar em plena pandemia, sem vacina, quem eles querem enganar? Nós sabemos que as escolas públicas não tem o mínimo de estrutura pra manter uma higienização ou mesmo um distanciamento social entre os alunos. Falta recursos humanos, falta torneiras nos banheiros, falta atenção à educação. Te agradeço por me manter atualizada sobre o que tá acontecendo em relação a isso. 

As vezes isso pesa demais. A experiência de professora EAD está sendo exaustiva, e pensar que muitas vezes isso teve que se articular com passar tempo com familiares no hospital e lidar com ansiedades diárias. Eu senti muita vontade de desistir. Mas eu vou tentando me reinventar. Eu me esforço pra voltar a escrever, que pra mim é movimento de cura. Eu tento não faltar a terapia. Eu ouço músicas que me fazem bem. Me matriculei em dois cursos online, logo agora que a "quarentena tá acabando", coloco aqui entre aspas porque com isso só quero dizer que estão querendo nos forçar a voltar a uma normalidade que não existe mais. Reabrindo o comércio aqui em Boa Vista, aí em Manaus, deixando claro que a nossa vida importa bem menos do que o CNPJ dos capitalistas. 

Um dos cursos que tô fazendo é sobre escolas conectadas, fala de educação e tecnologia, confesso que tomei uns tapas de alguns artigos que li em um dos módulos. A gente pensa que já se questionou o suficiente sobre essas novas formas de comunicação, mas a gente as vezes só passa por isso, não reflete, sabe? Esses dias decidi dar um tempo do twitter, e me percebi bem viciada mesmo, tipo o dia que eu fiquei sem tomar café e tive dor de cabeça. 

O outro curso é sobre direitos humanos, pela Anistia Internacional. Os dois são gratuitos e eu recomendo fortemente. A leitura é outro movimento curativo, me salvou e sempre me salva de mim mesma, da loucura que tá em mim e que tá no mundo. Sigo também na minha meta de ler prioritariamente escritoras, é algo que dá uma revigorada na minha energia, apreciar mulheres e seus trabalhos. 

Isabel, te escrevo pra manter essa amizade de quarentena, e pra dizer que espero pelo dia que poderemos concretizar os nossos planos de viagens acadêmicas. Pro Pará o mais breve possível, pro Fazendo Gênero em Santa Catarina. Espero também que você consiga me visitar no interior do Amazonas quando eu voltar e quando as coisas estiverem mais seguras pra todo mundo. Como você sabe, eu corri pra Boa Vista no comecinho da quarentena, vindo literalmente em um dos últimos ônibus antes que fossem suspensas as viagens interestaduais. E a verdade é que minhas raízes ainda estão aqui, minha gente, minhas praias de rio. Eu não consigo me desligar tão facilmente. Mas eu tô aprendendo. E eu não tenho medo de viver sabe. É muito bom encontrar pessoas como você, que também não tem. Eu sigo por aqui, tentando contornar os vícios que me prejudicam, priorizando a vida offline do jeito que dá, criando novas metas de leituras e de coisas pra aprender. Buscando inspirações pra voltar a pintar. Me planejando pra voltar pra mim. Todas essas questões com Roraima e o Amazonas me ajudam a perceber que é a gente que constrói a sensação de casa. É bom ter a certeza de que eu posso contar com companhias como a sua pra fazer do Amazonas meu novo lar. 

Com carinho, 
Bárbara.

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