Mãe.



Simões Filho, Agosto de 2020.

Mãe

No natal de 2018, eu comprei para você um jarro com um cristal, que brilhava de várias cores. Escolhi com afeto, pois estávamos em meio à um turbilhão naquele ano. 2018 foi desafiador, e no momento de confraternizar, eis que o presente que comprei com tanto amor, quebra no instante em que te entrego. Quebrou o jarro, mas o cristal permaneceu intacto e continuava a brilhar. Guardamos os cacos para consertar depois. Passou-se 2019, mais um ano que ao lembrar, tenho a sensação que vivemos o lema de JK proporcionalmente, foram dez anos em apenas um. 2019 nos trouxe pessoas e experiências únicas; inícios e fins de ciclo. Foi um ano intenso, nem deu tempo de lembrar de consertar o cristal...

2020 chegou com tudo, mostrou para que veio, e fez tudo parar. Trouxe uma pandemia, que pisou o pé no freio dessa vida frenética. “Fique em casa” é o lema da vez. E eu me pergunto: que casa? A casa de concreto, e também a de carne e osso que é o nosso corpo. A casa que nós às vezes nem lembramos o que tem nas gavetas, vamos só acumulando coisas, deixando para arrumar depois. Mas ficar em casa nos coloca no movimento de arrumação e contraditoriamente traz a sensação de estagnação. Ficar em casa revira a gente por dentro, nos convida a acessar essas bagunças esquecidas. É um mix de sentimentos tão intensos, emoções a flor da pele. São tantas vivências esse ano e ainda nos esperam mais cinco meses. Tantas coisas sentidas, ressignificadas, assumidas, em meio essa pandemia. Somos colocados diariamente diante de nós mesmos, dos nossos maiores medos, dos sentimentos que mais doem e ferem e sangram. Diante das nossas sombras. E tudo isso vem à tona, como uma avalanche, um tsunami, vem rompendo, vem quebrando, colocando abaixo tantas crenças. E a gente no meio de tudo isso, o que fazer?

Diante dessa indagação, me lembro do Zé, que fala sobre o poder das metáforas. Você me ensinou sobre elas, quando eu nem sabia o que significavam. Me ensinou quando contava as histórias das suas “meditações” na adolescência deitada no rio limoeiro, ou quando o fim de tarde de um domingo era preenchido com a “dança da fumaça do incenso”... Quantas metáforas nos salvaram a alma!

Você é metafórica, mãe... Você é a sua criança assustada, é a sua adolescente sensível, é todas as tuas personas, mas é sobretudo humana!

Anteontem você me perguntou sobre o cristal, aquele que eu falei lá no início. Ontem Lú colocou o cristal em um pote de vidro, colou com durepoxi, no combinado da senhora pintar de dourado depois. Na China ou Japão, não sei ao certo, eles têm o costume de colar as porcelanas quebradas com ouro líquido e as usam como enfeite e fica lindo!

Mãe, a gente quebrou junto com o cristal, mas estamos juntas nessa busca de se consertar, de colar os cacos... Um jarro quebrado nunca mais será o mesmo, mas a beleza daquilo que brilha não quebra, não se desfaz! A luz que precisa vibrar não se espatifa. A gente reconstrói, a gente cola com amor, com verdade, com durepoxi ou com ouro!

Eu vejo você, mãe. Com amor e luz.

Quando criança eu te via como a mulher heroína que “cuidava da loja, da casa, da gente, estudava, e ainda aguentava as ‘chatices’ do meu pai”, essa frase ficou marcada. Hoje eu te vejo como a heroína que está em busca de si mesma, enfrentando seus assombros, cuidando de si. Que lindo ver que você se permitiu essa pausa. Respira e cuida. Cuida, mãe, da sua criança, dá colo para ela. Sabia que o seu colo é o melhor do mundo para mim? Cuida, mãe, da sua adolescente cheia de sensibilidade, conversa com ela no pasto do fundo da casa de minha vó. Cuida, mãe, cuida dessa parte sua que se sente desolada. Cuida, mãe, do seu sagrado, da sua alma. Cuida de si!

Eu to me cuidando, mãe... Eu to crescendo, graças a você que me cuidou tão bem todos esses anos.

Você tem o dom de cuidar, mãe!

Agora? Agora é a hora de enfeitar o cristal, cada um faz um pouquinho... Ele brilha! Ele é âncora

Com o amor imenso de sempre,

Aurinha...

 

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