Para você.

 


Vitória da Conquista, abril de 2020

Ontem passei a tarde na cama. Debaixo do edredom, de pijama e com muitas olheiras. Tenho dormido quase nada, mas passo a maior parte do tempo bem. Ontem não. Ontem eu só queria desligar, tirar o foco dessa realidade confusa e acordar quando as coisas estivessem no lugar. Logo em seguida penso que nunca existiu nada no lugar e essa é uma das grandes vantagens de estar aqui.

Não tem sido fácil, mais uma vez. Ando cansada e ao mesmo tempo muito lúcida. Ontem a política do Brasil, em meio a uma crise pandêmica, virou motivo de chacota. Novamente. Isso me incomoda, mas já não choro. Tenho evitado buscar notícias sobre coisas que não conseguirei mastigar fácil. Não é uma boa época para andar engasgada. Quero sorrir. E acreditar.

O outono chegou e isso me acalma. A temperatura caiu e meus sentimentos não sentem pressa de nada. Consequentemente, tenho me demorado a contemplar a existência do que meus olhos conseguem alcançar. O céu tem sido o meu maior aliado. As flores. O movimento bonito da vida que continua enquanto estou dentro de casa. Tudo continua acontecendo e a poesia vive cheia de palavras.

Lavo tanto as mãos que elas hoje têm outra textura. Sinto dores pelo corpo, pois já não acho uma posição confortável para existir. Mas existo. A vida é o maior manifesto atual. Respirar é um ato político. E a minha sorte é ter uma janela por onde espiar o mundo e inventar histórias do hoje enquanto o futuro continua a ser uma aposta.

Por aqui os passarinhos têm cantado mais. Eu danço os sons que seus peitos estufados entoam. Enquanto eles pousam no meu muro para fazer festa, meus sonhos não estacionam. Se eles podem voar e escolheram estar aqui, fico em casa e faço carinho em minhas asas. O próximo voo será assim, pra dentro de mim.

Enquanto escrevo o sol caça um lugarzinho entre as nuvens. O céu ficou até azulzim. E eu também.

Vai funcionar,
Jaya.


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