Olá!



Outubro de 2020,

Olá,

O cansaço me corrói já há bastante tempo, são dias difíceis esses de tentar manter a sanidade e seguir com a vida mesmo com o mundo todo se despedaçando lá fora. A cada dia, me sinto empilhando sentimentos como quem faz uma torre de legos quando não se tem todas as peças. Formam-se encaixes frágeis, sinuosos e basta um leve vento entrar pela janela que tudo começa a querer desmoronar.

Não sei até quando as estruturas permanecerão fortes o suficiente para aguentar a pressão do que foi construído em base fraca, mas sigo, vivendo, erguendo mais andares, cultivando paciência e um pretenso otimismo de quando a realidade é dura por demais.

Sei que não só aqui pairam incertezas. Em todo canto tem mais um perdido nessa quarentena que nem mais é pra todo mundo uma prisão. De qualquer forma, me revirei do avesso pra me achar dentro de mim, exausta como nunca em mais um dia que quis largar tudo nessa tarde quente, abafada e pura lentidão, pra fazer diferente do desejado e escrever essa carta só pra te dizer: aguenta daí, que eu aguento de cá.

Me despeço pra ir tomar um banho gelado e uma xícara de café bem quente, esperando que por aqui tudo se amenize e amorne, pelo menos até então.

Sobrevivendo por mais um dia, 
Jéssica.



 

Para Wendel.



Vitória da Conquista, outubro de 2020


Amigo,

 

Quando recebi tua carta, depois de reler uma porção de vezes, fiquei parada fazendo um filme com todas as tuas frases. Foi aí que descobri que você combina muito com aquelas montagens europeias, onde o cotidiano não corre porque todas as coisas descobrem que o tempo de ser é nenhum que não aquele onde conseguimos chegar. E você chega tão bonito, que mesmo sem estar preparada te recebi com suaves confetes de enfeitar o riso.

 

Coincidência ou não, quando você chegou eu tinha acabado de começar a ler o meu primeiro livro de Adélia, muito por sua causa. Porque você tem esse jeito mineiro de ser casado com a poesia. Ali você falava sobre tentar desviar dos caminhos contrários e me fez pensar que, nesses dias de clausura, tive muito medo de não saber mais andar. Antes disso tudo acontecer eu nem enxergava direito o depois, Wendel. O foco era tentar me equilibrar, nem percebia que rondava por aí me sentindo programada, como se minhas decisões fossem consequência da falta de habilidade de segurar o guidom da minha própria vida. Depois teve um dia besta, como a grande maioria dos dias, eu tava quieta no meu canto e me iluminou a certeza mais certa que eu já tive. Acendi um incenso de jasmim e perfumei meus próximos passos. Você acredita, amigo, que com o mundo todo doido do jeito que tá, calhou de me acontecer justo agora um movimento enorme de carinho da vida? Eu acho que mereço, até. 

 

Ando lendo muito, descontrolada. De vez em quando lembro da tua estante e da visita que te prometi, com bolo e palavra, porque a gente escreve e se alimenta de livro, mas eita que um docim na boca faz bem, né? Você falava sobre domar os impulsos. Uma vez li que os impulsos são como bolhas de sabão, se você não seguir no momento em que elas passam, elas estouram na sua frente. Foi no livro “Confissões de Adolescente”, o que me surpreende, porque faz mais de vinte anos que li — e reli até decorar, pelo visto. Fora que a série que passava àquele tempo na TV Cultura é até hoje uma das minhas preferidas. Mas enfim, essa frase é dita por Domingos de Oliveira a sua filha, Maria Mariana (autora do livro/que também é diário). Amigo, escrevendo eu falo pra caralho, igual Caio F. Sempre me prometo que vou fazer uma carta de no máximo dois minutos e quando vejo queimei todos os tempos. Isso tudo pra te dizer que existem impulsos muito pontuais, que devem ser agarrados. Depois que passa, aquela intuição de ser não volta. E se não for pro bem, perdoe. Se abrace. Geralmente somos nós mesmos os nossos principais tiranizadores. Tudo é aprendizado. Dá sempre tempo de corrigir, pode acreditar. É daí que eu acho que vem a sabedoria.

 

Enquanto te escrevia essa resposta, guardei no rolo câmera um por de sol a cada dia. Penso que para pessoas como você, os únicos presentes que merecem ser entregues são esses assim: um por do sol, um som de passarinho, um cheiro de livro novo, café passado por vó, um pedaço de céu do outono, um sorriso de uma criança banguela, uma conversa lenta na beira do fogão à lenha, um desenho de nuvem, manga chupada direto do pé debaixo da sombra, pés descalços na roça, gargalhadas que traduzem quem é feliz de verdade e, sim, um abraço cheio de asas. Como aquele que te entreguei. E me lembro muito porque foi exatamente esse o efeito que uma poesia tua causou em mim. Foi um impulso, amigo. Para um voo de encontrar-se. E muito atentos que somos aos manoelismos, é assim que a gente se terapeuta, encontrando um bocadim de azul nas horas todas.

 

Eu sinto tudo esperançar quando você escreve, Wendel. Não vivemos tempos de abraços, mas somos, nós dois, nascidos dentro de um berço que fazia aquele balanço de amor-demais. A gente entrega é cafuné, xodó e muito dengo. Deixo aqui agora pra você exagerar depois. 

 

Attraversiamo, amigo. 

 

Um monte de carinho meu,

Jaya.

 

P.s.: não lembro se você já assistiu “Master of None”. Assista (pela primeira vez ou mais uma vez). Nem é só porque amo a Itália e macarrão, mas porque retrata a nossa sede de nos buscarmos. Às vezes fugimos sem nem sabermos que estamos fazendo o caminho de volta para dentro de nós mesmos. Uma sorte.

Será mesmo?



Rio, abril de 2019

Ontem você me pediu uns documentos e entre um pdf e outro disse resolveu dizer que ainda me ama. 

Mas, será mesmo?

Num cantinho da tua alma, em algum poro do teu corpo, é possível que ainda haja resquícios desse amor? Do amor que tinha meu sobrenome? Na sua nuca, seu pescoço, escondido atrás da sua orelha, um amor tão pequeno que acabou recolhido num milímetro quadrado de pele. Não aparece na foto. Não tem relevo. Não tem cor. Será mesmo?

Não parece, mas talvez você ame, sim, um pedacinho de mim. Uma curva do meu corpo, a voltinha do meu umbigo, a minha orelha mais pontuda. Uma, duas, não mais que três das milhares de pintas que brotam no meu colo -- e se multiplicam a cada ano. Um amor tão pequeno que acabou irrelevante, incapaz de cobrir a ponta de um alfinete. Não espeta. Não marca. Não sangra.

Será mesmo? Porque sinceramente não parece.

Talvez você ame uma ideia sua, um fantasma meu. Algo que eu fui quando não sabia bem quem eu era. Você não ama quem eu finalmente me tornei depois que me descobri. Não ama quem eu sempre fui, mesmo quando ainda não era capaz de me explicar. Quando me faltavam as palavras e o adequado arranjo entre elas. Quando tantos saberes se ausentavam que minhas angústias não encontravam alternativa, a não ser preencher todas as nossas conversas.

Talvez você ame, sim, partes, pequenas partes de mim. O meu silêncio. O meu sussurro. O meu gemido. Talvez você ame os barulhos que eu não faço mais. O gozo e o grito das certezas burras que eu abandonei. Talvez ame meus muros mais estúpidos, e odeie minhas janelas mais brilhantes -- aquelas com vidros rachados.

Talvez você só tenha sido capaz de amar meu calor até certa temperatura. E quando o incêndio começou, você foi lá e tentou contê-lo com as próprias mãos. Me culpou por suas queimaduras. Não quis aprender a arder comigo.

Nunca entendeu que casa não é conceito formado por tijolos. Casa é corpo, é mente, é alma -- e agora que eu finalmente sei meu endereço, sigo te procurando aqui dentro, mas não te encontro.

Será que você se encontra? Em alguma parte do seu corpo? Será que ficou tão pequeno que cabe também num pedacinho da sua nuca, seu pescoço, atrás da sua orelha? Enquanto o resto do seu corpo carece eternamente de você?

A gente podia se encontrar no meio e trocar descobertas, e aprendizados, e beijos, e lavar a roupa, e fazer amor, e pagar as contas, e abraçar os filhos, e resolver os problemas, e cozinhar a comida, e dividir as tarefas, e fazer a faxina (e amor).

Podia. Mas, paciência. Tanta coisa ainda podíamos aprender juntos, mas é seu direito estar mais interessado em saber sozinho tudo o que você já sabe -- ou pensa que sabe.

Porque no fundo, eu sei... Você não me ama. Você ama o desejo que guardou de mim. Ama o molde que você tanto insistiu que eu preenchesse -- e eu tentei preencher, eu juro (por você, eu tentei), mas o problema é que eu sempre transbordava. E o que transborda em mim é justamente o que você mais despreza. É a “sujeira” que te faz me acordar no meio da noite para limpar o seu impecável chão.

Eu não sei se fui eu que cresci ou se, ao longo dos anos, seu precioso molde encolheu.

De um jeito ou de outro, sinto muito (sinto mesmo)...

Vim aqui te dizer…
Que não vai dar…
Pra ser menor…
Por você.

Mas você ainda me ama.

Será mesmo?

Ei, vó.



Vitória, julho de 2020

ei, vó.

que saudade dos seus braços, que sempre sabem como acalentar o meu coração.

que saudade de beber seu café tão doce com bolo de bolo.

te escrevo com as vistas totalmente embaçadas, porque minha saudade transborda por meus olhos. 

acredite que minha ausência é porque prefiro alguns dias longe do que te perder pra sempre. ao menos eu posso ouvir sua voz todos os dias e às vezes te ver pela tela do celular.

em março, quando eu dizia te amar ao final da ligação você dizia 'Deus te abençoe'. mas já faz umas semanas que você responde com um 'eu também' tão sincero. 

você é a única pessoa que consegue identificar meu estado de espírito só pelo modo como eu peço bença no início da ligação, obrigada por ser sempre tão atenta. 

como eu aguardo o fim dessa distância, não posso te perder, vó. 

por favor, se cuida e lembra de beber água mais vezes.

com afeto,
sua ninha.

Para o meu eu.



São Luís, julho de 2020

Hoje eu acordei com vontade de viver, de fazer a diferença sabe!? De fazer a minha história! Ultimamente estou em um capítulo da minha história onde nela eu só acordo, e passo os meus dias com uma ânsia. A ansiedade não quer me permitir viver, e eu temo pelo meu futuro, o que no caso, é algo incerto.

Incerto porque parece que há dias que não irei conseguir suportar os dias ruins, parece que em qualquer um desses dias ruins vai me sufocar e de alguma forma, vai me matar. Mas eu não quero morrer, eu quero fazer a minha história acontecer.

Eu não quero me perder pra escuridão eterna. Eu quero ser curada e quero ser a própria luz da minha história. A luz que no final, irá construir a sua história  de superação e fé.

Por isso peço, paciência querido eu, já já passaremos essa fase ruim.


 

Mãe.



Simões Filho, Agosto de 2020.

Mãe

No natal de 2018, eu comprei para você um jarro com um cristal, que brilhava de várias cores. Escolhi com afeto, pois estávamos em meio à um turbilhão naquele ano. 2018 foi desafiador, e no momento de confraternizar, eis que o presente que comprei com tanto amor, quebra no instante em que te entrego. Quebrou o jarro, mas o cristal permaneceu intacto e continuava a brilhar. Guardamos os cacos para consertar depois. Passou-se 2019, mais um ano que ao lembrar, tenho a sensação que vivemos o lema de JK proporcionalmente, foram dez anos em apenas um. 2019 nos trouxe pessoas e experiências únicas; inícios e fins de ciclo. Foi um ano intenso, nem deu tempo de lembrar de consertar o cristal...

2020 chegou com tudo, mostrou para que veio, e fez tudo parar. Trouxe uma pandemia, que pisou o pé no freio dessa vida frenética. “Fique em casa” é o lema da vez. E eu me pergunto: que casa? A casa de concreto, e também a de carne e osso que é o nosso corpo. A casa que nós às vezes nem lembramos o que tem nas gavetas, vamos só acumulando coisas, deixando para arrumar depois. Mas ficar em casa nos coloca no movimento de arrumação e contraditoriamente traz a sensação de estagnação. Ficar em casa revira a gente por dentro, nos convida a acessar essas bagunças esquecidas. É um mix de sentimentos tão intensos, emoções a flor da pele. São tantas vivências esse ano e ainda nos esperam mais cinco meses. Tantas coisas sentidas, ressignificadas, assumidas, em meio essa pandemia. Somos colocados diariamente diante de nós mesmos, dos nossos maiores medos, dos sentimentos que mais doem e ferem e sangram. Diante das nossas sombras. E tudo isso vem à tona, como uma avalanche, um tsunami, vem rompendo, vem quebrando, colocando abaixo tantas crenças. E a gente no meio de tudo isso, o que fazer?

Diante dessa indagação, me lembro do Zé, que fala sobre o poder das metáforas. Você me ensinou sobre elas, quando eu nem sabia o que significavam. Me ensinou quando contava as histórias das suas “meditações” na adolescência deitada no rio limoeiro, ou quando o fim de tarde de um domingo era preenchido com a “dança da fumaça do incenso”... Quantas metáforas nos salvaram a alma!

Você é metafórica, mãe... Você é a sua criança assustada, é a sua adolescente sensível, é todas as tuas personas, mas é sobretudo humana!

Anteontem você me perguntou sobre o cristal, aquele que eu falei lá no início. Ontem Lú colocou o cristal em um pote de vidro, colou com durepoxi, no combinado da senhora pintar de dourado depois. Na China ou Japão, não sei ao certo, eles têm o costume de colar as porcelanas quebradas com ouro líquido e as usam como enfeite e fica lindo!

Mãe, a gente quebrou junto com o cristal, mas estamos juntas nessa busca de se consertar, de colar os cacos... Um jarro quebrado nunca mais será o mesmo, mas a beleza daquilo que brilha não quebra, não se desfaz! A luz que precisa vibrar não se espatifa. A gente reconstrói, a gente cola com amor, com verdade, com durepoxi ou com ouro!

Eu vejo você, mãe. Com amor e luz.

Quando criança eu te via como a mulher heroína que “cuidava da loja, da casa, da gente, estudava, e ainda aguentava as ‘chatices’ do meu pai”, essa frase ficou marcada. Hoje eu te vejo como a heroína que está em busca de si mesma, enfrentando seus assombros, cuidando de si. Que lindo ver que você se permitiu essa pausa. Respira e cuida. Cuida, mãe, da sua criança, dá colo para ela. Sabia que o seu colo é o melhor do mundo para mim? Cuida, mãe, da sua adolescente cheia de sensibilidade, conversa com ela no pasto do fundo da casa de minha vó. Cuida, mãe, cuida dessa parte sua que se sente desolada. Cuida, mãe, do seu sagrado, da sua alma. Cuida de si!

Eu to me cuidando, mãe... Eu to crescendo, graças a você que me cuidou tão bem todos esses anos.

Você tem o dom de cuidar, mãe!

Agora? Agora é a hora de enfeitar o cristal, cada um faz um pouquinho... Ele brilha! Ele é âncora

Com o amor imenso de sempre,

Aurinha...

 

Para Alexandre.



Ipiaú, julho de 2020

Alexandre,

Quando você ler essa carta já estará há alguns quilômetros de distância de mim...

E o que seria a distância para nós senão a irremediável constante desde o dia que nos conhecemos? Distância que por diversas vezes foi encurtada pelas longas viagens pela BR 101 e que no fim sempre eram recompensadas pelos braços aconchegantes um do outro.

Até que veio a pandemia para aterrorizar o mundo e nos deixar ainda mais angustiados ao pensar na distância imposta a nós por uma doença. Depois de termos passado tantos dias juntos, do réveillon até o carnaval sem se largar, vinha um vírus do outro lado do mundo aumentar nossa distância!!

E não é que ao contrário do que pensávamos a pandemia nos aproximou mais?! Acho que nunca passamos tanto tempo juntos como agora e diante de todas as dores causadas pelo COVID-19 nós conseguimos ver as boas coisas que ele nos trouxe. Vou sentir falta de chegar no quarto e te observar super concentrado trabalhando enquanto no seu fone de ouvido toca desde Adele em ritmo de arrocha até os funks mais pesados do Brasil, e apesar de eu odiar, vou sentir falta das inúmeras canecas em cima da mesa, porque não vê-las é sinal claro da sua ausência. Vou sentir falta de acordar com o cheiro de café e com seu chamego antes que você se fechasse no quarto para trabalhar.

Você mal foi embora e eu já estou aguardando sua volta.

PS.: A carta manuscrita tá no bolso da frente de sua mochila.


 

Para Isabel.



Boa Vista/RR, julho de 2020 

Oi, Isabel. 

Te escrevo pra cultivar o que temos construído. Antes de tudo, te agradeço por topar uma comunicação mais lenta, sabe? Eu realmente acredito que essa pandemia é um alerta da mãe terra, pedindo pra gente desacelerar. E pra mim essa é uma das formas de ir mais devagar e até uma forma de ser mais sincera nas minhas relações. Escrevendo cartas eu penso sobre o que eu quero falar, sobre os sentimentos que quero passar, sem imediatismo, sem pressões. Esses dias eu li uma matéria sobre estarmos viciados em tecnologia, e eu não duvidei não. Eu as vezes me pego muito ansiosa com tudo isso de internet e aparelhos tecnológicos. E eu uso muito, pra muitas coisas na vida, e quase todo mundo que eu conheço também usa muito. Agora durante a pandemia parece que a gente passou a existir muito mais online né? Isso as vezes me dá um ardor no estômago. 

Eu tento não passar tanto tempo online, mas ainda é como eu consigo manter algumas conexões com pessoas que eu aprecio e amo e que estão longe, principalmente depois que fui morar no Amazonas. E você tá aí agora né, no Amazonas. Sem a internet a gente talvez nem se conheceria. Já que foi por uma postagem no twitter que a gente começou a se falar. E eu descobri que você é professora de História, como eu. E que pesquisa História das Mulheres, como eu quis um dia e não deu pra continuar. Quero deixar explícita minha admiração por toda a luta que você e os demais professores vem fazendo na oposição da volta às aulas no Amazonas, a gente sabe que essa é só mais uma política genocida...colocar uma escola pra funcionar em plena pandemia, sem vacina, quem eles querem enganar? Nós sabemos que as escolas públicas não tem o mínimo de estrutura pra manter uma higienização ou mesmo um distanciamento social entre os alunos. Falta recursos humanos, falta torneiras nos banheiros, falta atenção à educação. Te agradeço por me manter atualizada sobre o que tá acontecendo em relação a isso. 

As vezes isso pesa demais. A experiência de professora EAD está sendo exaustiva, e pensar que muitas vezes isso teve que se articular com passar tempo com familiares no hospital e lidar com ansiedades diárias. Eu senti muita vontade de desistir. Mas eu vou tentando me reinventar. Eu me esforço pra voltar a escrever, que pra mim é movimento de cura. Eu tento não faltar a terapia. Eu ouço músicas que me fazem bem. Me matriculei em dois cursos online, logo agora que a "quarentena tá acabando", coloco aqui entre aspas porque com isso só quero dizer que estão querendo nos forçar a voltar a uma normalidade que não existe mais. Reabrindo o comércio aqui em Boa Vista, aí em Manaus, deixando claro que a nossa vida importa bem menos do que o CNPJ dos capitalistas. 

Um dos cursos que tô fazendo é sobre escolas conectadas, fala de educação e tecnologia, confesso que tomei uns tapas de alguns artigos que li em um dos módulos. A gente pensa que já se questionou o suficiente sobre essas novas formas de comunicação, mas a gente as vezes só passa por isso, não reflete, sabe? Esses dias decidi dar um tempo do twitter, e me percebi bem viciada mesmo, tipo o dia que eu fiquei sem tomar café e tive dor de cabeça. 

O outro curso é sobre direitos humanos, pela Anistia Internacional. Os dois são gratuitos e eu recomendo fortemente. A leitura é outro movimento curativo, me salvou e sempre me salva de mim mesma, da loucura que tá em mim e que tá no mundo. Sigo também na minha meta de ler prioritariamente escritoras, é algo que dá uma revigorada na minha energia, apreciar mulheres e seus trabalhos. 

Isabel, te escrevo pra manter essa amizade de quarentena, e pra dizer que espero pelo dia que poderemos concretizar os nossos planos de viagens acadêmicas. Pro Pará o mais breve possível, pro Fazendo Gênero em Santa Catarina. Espero também que você consiga me visitar no interior do Amazonas quando eu voltar e quando as coisas estiverem mais seguras pra todo mundo. Como você sabe, eu corri pra Boa Vista no comecinho da quarentena, vindo literalmente em um dos últimos ônibus antes que fossem suspensas as viagens interestaduais. E a verdade é que minhas raízes ainda estão aqui, minha gente, minhas praias de rio. Eu não consigo me desligar tão facilmente. Mas eu tô aprendendo. E eu não tenho medo de viver sabe. É muito bom encontrar pessoas como você, que também não tem. Eu sigo por aqui, tentando contornar os vícios que me prejudicam, priorizando a vida offline do jeito que dá, criando novas metas de leituras e de coisas pra aprender. Buscando inspirações pra voltar a pintar. Me planejando pra voltar pra mim. Todas essas questões com Roraima e o Amazonas me ajudam a perceber que é a gente que constrói a sensação de casa. É bom ter a certeza de que eu posso contar com companhias como a sua pra fazer do Amazonas meu novo lar. 

Com carinho, 
Bárbara.

Para a antiga dor.



Salvador, julho de 2020

Carta para a antiga dor

Achei que não...Mas você passou.
Seu nome agora é Saudade.
Te chamava de Amor, Paixão, meu Bem, minha Vontade.
Meu nome era Querer, Simpatia, me chamavam de Felicidade.
Mas o início e o fim são a mesma moeda.
Para o pesar de uma das partes.
Carreguei.
Você era agora um Peso
Eu Papel.
Me perguntava como se tinha transnomeado nisso, 
Raiva, Falha, Ódio, Incompreensão...
Mal sabia que na minha imaturidade, me chamava de Narciso.
Ainda assim te chamei de muitos nomes, mas não consegui te chamar de Rancor.
Amor também é meu nome e amores se tornam passados bons de lembrar, Saudade!
O problema do Tempo é que ele é relativo, egocêntrico e inconstante.
Mas é antigo e sábio.
Com ele, o Peso da Dor vai se tornando cada vez mais leve.
E eu metamorfo em Pássaro.
O Tempo te transforma em Compreensão, Clareza e o mais importante, faz de você um lugar pra revisitar, sem que a gente perceba.
E hoje fui lá lhe reencontrar...
Me vi.
Não importa seu nome, eu sou Você e Nós.
Saudade, quando você foi Dor, te visitava sempre, nunca nos entendíamos.
Lhe pedia para se transnomear em Esquecimento, pra parar de doer.
Hoje procurei querendo doer, para lembrar de como era... mas você não dói mais, você está lá, mas não me machuca, não me ataca. 
O Tempo nos trouxe equilíbrio.
Seremos sempre o que quisermos, juntos.

Eu te amo.
Agora.


 

Para a janela.



Brasília, agosto de 2020

Carta para a Janela.

Querida Janela, agora você é muito mais importante em minha vida e queria lhe agradecer... Pois através do seu olhar consigo olhar o mundo, que passa a passos lentos lá fora! Porque aqui dentro continua tudo muito rápido. Seja do seu olhar na parede de casa, no carro ou até mesmo formada por pixels de uma tv, é por você que eu enxergo esse novo mundo! Um dia estávamos lá fora, vivendo, amando, respirando e do nada estamos aqui, presos sem grades, vendo e sentindo o mundo através do seu olhar! Obrigado por nos dar esse pequeno quadrado de liberdade que nem sempre imaginei ser tão importante. Um dia, torço por isso, você será esquecida novamente e essa centelha de liberdade que nos proporciona não será lembrada, mas enquanto isso não vem obrigado por me trazer mais perto do que eu lembro ser real!


 

Para a liberdade.



Rodelas, junho de 2020

Ei, você, eu sinto sua falta. 

Em meus pensamentos há a sua presença, quase que diariamente. As lembranças de como éramos uma excelente dupla chegam e deixam seu coração em pedacinhos espalhados pela cama. De viagens ao exterior a cervejas compradas no supermercado em frente de casa e bebidas ainda meio quentes, a ansiedade sempre foi maior do que a paciência de deixar gelar tudo direitinho.

Eu sinto falta de falar pra todo mundo o quanto te amo e aproveitar cada segundinho ao seu lado, podendo demonstrar quem eu realmente sou e gosto de ser. 

Nós éramos um ótimo casal, você lembra, né?! Todos sabem, todos viram, ninguém vai se opor se você disser o mesmo. Não é errado admitir. Ruim mesmo é estarmos tão longe um do outro. 

Hoje deito nos braços da solidão, de um quase encarceramento emocional. Tem sido difícil pensar no futuro sem sua voz dando ideias, mas eu tento todas as noites até adormecer completamente desnorteada. Não é meu melhor momento e não sei como está por aí, já faz um tempinho que não nos falamos direito. Cortamos relações. Confesso que imaginei que seria por pouco tempo, me enganei e há muito estamos distantes.

Sonho constantemente com você, até mesmo com os planos que nós tínhamos. Parece fazer mais tempo do que realmente é.

Evito pensar nas mesas de bares que já sentamos, dos shows e até mesmo das crises... Aquelas de sono depois de tanto de aproveitar no meio da semana. O problema é que evitar de pensar já é pensar, então falho. Não nego.

Eu realmente sinto sua falta, constantemente. Sei lá, é físico. Alguns dias são piores que outros e não tenho pra onde fugir, porque você é exatamente quem nenhum de nós pode ter. 

Saudades de você, liberdade. Espero poder correr de mãos dadas com você de novo... em breve.

Sobre os dias.




São Paulo, agosto de 2020

Estou tentando me adaptar a essa velha nova rotina. Ainda não consegui cumprir a promessa de acordar às 6 da manhã e aproveitar melhor a vida.

Mais uma vez perdi aquela brisa fresquinha, o musical dos passarinhos no quintal, o espetáculo de cores do amanhecer... O que me acalenta é saber que amanhã eles estarão de volta no mesmo horário. É só uma questão de eu me organizar.

Passo a tarde listando atividades que eu poderia fazer para me ocupar entre um trabalho e outro. Estou na fase de preparação da quarentena, embora ela tenha chegado faz tempo, para muitos já tenha acabado e para alguns nem tenha existido.

Gosto de fazer coisas aleatórias também: sento no sofá da sala, ligo o rádio e fico curtindo abraçadinha com a minha solidão. Como a música pode entrar assim tão fácil na casa das pessoas? Não precisa de máscara, sabão, álcool em gel, nem qualquer tipo de proteção. Algumas canções entram de fininho pela porta do coração e se tornam grandes amigas.

Observo as plantas no quintal, as flores, o vento, tudo continua em movimento. As formiguinhas nunca pararam de trabalhar. O céu está mais azul ou é impressão minha? Tanta coisa bonita para admirar aqui fora. Algumas lágrimas escorrem pelo meu rosto e criam uma pequena poça d’água debaixo dos meus pés.

Eu deveria colocar um vestido florido e passear com os cactos e as suculentas. A gente podia fazer uma sessão de fotos e brincar de primavera. Nesses dias difíceis, eu me esqueço que eu também sou planta, natureza, bicho. Estou na fase de hibernar. O inverno chegou um pouco mais cedo esse ano e não tem data para acabar.

Há de haver beleza em todas as estações. Eu precisava de uma pausa para conhecer as minhas outras versões. Não dá para ser verão o tempo todo. Eu sei. Eu tentei.

Sobre sentir.



Retirolândia, junho de 2020

Hoje foi mais um dia que eu tentei me refugiar em algum lugar para não me debater tanto com tudo que vem acontecendo, alguns imaginam sobre o que eu falo, outros (poucos e íntimos) tem certeza dos porquês para tanto caos aqui dentro.

Eu espero ansiosamente o sol baixar-se para que eu possoa ir me encontrar com ele. Talvez isso tenha virado minha rotina de refúgio diário em meio ao caos, e toda vez que eu saio pela porta sinto que preciso deixar toda minha bagagem no sofá, afinal, quem não precisa de alguns minutos de paz, sem todos aqueles emaranhados de pensamentos que te perseguem desde às 6:10, já que dormir até tarde já não é tão possível. Talvez seja por conta do sol que entra pelo telhado do quarto, talvez seja por conta dos piores pensamentos que não te abandonam, tá aí uma coisa que tu nunca terá certeza.

Hoje, em uma das minhas visitas ao sol, percebi todo o silêncio que antes não fazia parte do cenário. Os grilos estão mais silenciosos, assim como eu e é incrível como todo dia é único e por mais que tu tente deixar as bagagens no sofá algumas delas estão presas a ti.

Para Letícia.



Salvador, outubro de 2020

Amiga, repare!

Esses dias andei lendo poesia. Álvaro de Campos. É bonito isso de Fernando Pessoa ter sido vários poetas ao mesmo tempo, né? Às vezes eu também sinto que sou várias...Mas enfim. Alvaro escreveu que "é sempre melhor o impreciso que embala, do que o certo que basta" E eu concordo. Esse verso me fez pensar em você e nas bagunças das nossas vidas nos últimos anos. E, que vida, ein? Que ano esse, especificamente. Não bastava uma Pandemia. Ainda temos que lidar com esse limbo entre ser "jovem demais" e, ao mesmo tempo, "velha demais" pra qualquer coisa. Será que existe a "crise dos quase 30"? Ou, sei lá, que nosso Saturno resolveu "retornar" mais cedo? Não sei. Ai, amiga, te juro, às vezes chega o fim do dia e eu só queria o seu ombro pra chorar por qualquer dessas bobagens que me tiram o sono e a sanidade. Até fecho os olhos e nos vejo sentadas no chão da sala tomando quantas xícaras de café forem necessárias, até a dor passar. Daqui, sozinha, de vez em quando parece que a dor não passa nunca. É uma montanha-russa. E eu sei que não tá muito melhor por aí, também. Mas, sabe de uma coisa? Acho que é toda essa imprecisão que faz da vida tão divertida (convenhamos) e especial. Como nos versos de Álvaro de Campos. Fiquei pensando nisso depois que li esse verso: em como está tudo bem em não estar tudo tão bem assim.

C'est la vie. Ou algo do tipo. Nossas bagunças são preciosas, amiga. Porque é com elas que a gente aprende a se organizar, pega impulso pra seguir, não se acomoda e...bom, existe de verdade. Acho que esses versos falam sobre não se acomodar. E ser uma bagunça. Aliás, que maravilhosa bagunça você é, viu?

A propósito, tá chegando o seu aniversário e, mesmo sem sentir direito em que dia estamos, ainda consigo sentir a energia bonita que a sua existência tem. No fim das contas, te escrevo pra dizer que espero que tudo esteja e permaneça bem por aí. Não importa quantas vezes as coisas virem do avesso. Nos dias ruins, eu estarei aqui pra ajudar a juntar os caquinhos, varrer a casa passar um café, choramingar um pouquinho, criar teorias e começar de novo.

Te ver crescer e se reinventar, é me ver crescer junto, porque tu é um pouco de mim. Vai em frente, amiga. Vai ser tudo. Você já é! Não há outro destino pra tua vida que não seja a mais irremediável e plena felicidade.

Feliz aniversário.

Te amo,

Para Maria.



Brasília, agosto de 2020

Ei, Maria.

Tava aqui pensando sobre nosso encontro há 3 anos em Salvamô. Lembro de tu caminhando, com uma saia rodada e o sorriso bonito que só tu tem. Da gente no barzinho perto da casa de Brenda rindo horrores das nossas desilusões amorosas. Mas sabe o que mais lembro daquela época? Da tua liberdade. Da forma bonita que você vê o mundo. Sei lá. Acho você tão incrível, tão dona de si mesma. Uma mulher livre, sabe?

A quarentena tá acabando com o nosso psicológico. Ela adiou o encontro do nosso quarteto. Que épico será o dia em que nos encontrarmos. Mais de dez anos de amizade nascido na era blogger. Mas enquanto isso quero que saiba que você me inspira e que é muito foda ter uma amiga igual a você. Que todos os dias cresço contigo e que é muito bom dividir a vida com você. Sei que às vezes bate umas crises existenciais aí e que a gente se pergunta: o que eu estou fazendo nesse mundo?! Mas, mulher, se acalme. Você tá fazendo a diferença, viu. Não só em minha vida, mas na vida de muitas pessoas que te acompanham e te amam.

É uma honra estar em seus melhores amigos, no instagram, rir das suas peripécias e acompanhar as suas sagas por ingressos. Quando será que Sandy e Junior fará um novo show? Então, é isso. Quero que saiba que você é foda e que é uma honra acompanhar a sua evolução desde a época que a gente era menina (ou será que ainda somos? Questões. A carta de hoje é só pra te dizer que essa época vai passar, tá? E sabe como sairemos dela? Mais fodas do que somos. 

Eu te amo, amiga, muito. Fica bem daí que eu fico bem daqui. 2021 é nozes.

Para F.



Vitória da Conquista, agosto de 2020

F.,

Eu achava que nunca mais ia sentar pra escrever e direcionar alguma palavra a você. Mas é quarentena, e diante de tanta coisa que vivi nos últimos três anos, mais a terapia pausada nos últimos meses, tenho mergulhado em processos que me ajudam a desfiar algumas questões que me incomodam um pouco na hora de respirar. Venho por isso.

Nós sempre fomos uma história sem fim. Nos despedimos várias vezes, ficamos tempos sem contato algum, mas quando nos encontrávamos era real aquele clichê de que tudo continuava igual. Até que um dia escrevi aquele texto, "Apenas o Fim", e deixei você ali, quietinho. Pra sempre. Depois daquilo fui reaprendendo a deixar meu coração fazer novos caminhos. Encontrei novas pessoas. Vivi algumas histórias. E a mais séria delas começou dias antes de você me dizer que estava disposto a fazer a gente funcionar. Tô relatando porque preciso dar essa olhada no ontem pra ver se chego onde quero, ok? Você finalmente estava disposto, mas eu não conseguia mais acreditar. Tentamos então ser amigos. Logo a gente, que nunca foi amigo. Que se apaixonou de um jeito inédito e intenso e por isso mesmo, assustador. Mas eu ia, lembra? Sempre fui, chamei, esperei. É bizarro lembrar que você só se atentou quando eu já não estava mais ali. Tão ridículo, você. Então ok, amigos. Só que existia um desconforto. Não parecia de verdade. Não parecia natural a gente trocando confidências sobre amor e sexo. Eu sentia, e talvez estivesse errada, que precisava deixar você ir. Construir a sua vida. Me permitir passar. Daí então parei de responder às suas mensagens e e-mails. Somado a isso, eu vivia um relacionamento onde ficava cada vez mais claro que sua presença incomodava. E tive vergonha de te dizer isso. Porque sabia que não era assim que as coisas funcionavam e porque sabia que você não iria me reconhecer. Existia aquele pacto de estarmos na vida um do outro para sempre. Mas fiz uma escolha, por nós dois. Sem pedir sua opinião, como se você fosse mesmo descartável e eu não te enxergasse na minha frente toda vez que Nando cantava "Por Onde Andei" em algum lugar.

E agora já faz o que? Seis anos? Tô aqui escrevendo. Porque foi somente aqui, em 2020, que procurei algum sinal de você. Te encontrei, mas fiquei quieta, enquanto agradecia por você estar bem. Corri pra comentar com algumas amigas sobre o meu sentimento. Tudo em mim ama você, ainda hoje, tanta coisa depois. Mas aquele amor tranquilo e distraído, sabe? De quem não precisa de nada além de sentir o outro em paz. Tudo em mim conseguiu sorrir e ficar feliz. Uma felicidade quase minha, em notar suas conquistas e construções. Sentir que o tempo te fez esse carinho bom. Que a vida se desenhou bonita nas tuas horas.

Te escrevo para contar também que as coisas por aqui foram difíceis e loucas, mas que eu tô bem. Não faço a menor ideia se um dia você vai ler isso. Não sei como você me receberia -- se é que me receberia. A vida é outra. Nós somos outros. Mas gostaria de deixar claro que muito em mim é formado de você. Sei que aí é do mesmo jeito, não tem como negar que toda aquela troca não ficou arraigada em quem nos tornamos. E a sorte é toda minha.

Ainda não li aquele livro que você me deu junto a uma carta, no meu último aniversário onde ainda nos falávamos. Guardo os dois. E guardo você. 

Desculpa o silêncio. A ausência. O gesto. Eu ainda lembro dos teus olhos claros sorrindo. E desejo que eles tenham todos os motivos pra brilharem por aí. 

É sempre com amor,
Jaya.

Queridinho.



Salvador, agosto de 2020

Escuta aqui, Queridinho.

Quem disse que a fragilidade dos tempos iria comprometer a força do Adeus que eu te disse naquele dia?  Não vai funcionar me cercar, me buscar, passar aqui pra checar como estão as coisas desde que você partiu.  É melhor compreender de uma vez por todas: eu te mandei embora e é lá que você deve ficar: fora. Fora da minha vida. Eu não te quero nem como espectador.

De qualquer forma, os tempos estão mesmo uma merda. Permaneço em casa, evitando encontros, absorvendo informações e sentindo saudades insistentes e inesperadas. Aproveitei pra repensar episódios da minha própria vida. E é impossível não sorrir quando penso em nossa história, Queridinho. Não pense, contudo, que é um riso de ternura. Está mais pra aquela risadinha meio acanhada, de quem pensa: Como é que pode? Como é que eu pude?

E, quer saber? Acho que você é uma das histórias que eu não vou precisar revisitar pra entender o final. Acabou mesmo. Daquele jeito ali. Sigamos como for possível. É o que eu estou fazendo, enquanto te observo delinear um caminho risível de volta pra cá. 

Apenas pare. Num fode, Queridinho. Eu sei que eu te escrevi em todos os meus versos, inventei poesias de você e me deixei preencher por cada lembrança das coisas que eu queria viver contigo. Tá, eu sou romântica, eu sou poeta, eu sou exagerada. A gente sabe disso. Mas a questão é que, sozinha no meu quarto, por tantas noites, eu pude perceber que aquilo tudo não foi nada disso.  E tudo bem, eu tô ótima.  Inventar a nossa história foi divertido, importante.

Mas agora já foi, sabe?  Tem muitas coisas pra eu viver, imaginar, inventar, roteirizar sozinha na minha cabeça... com outros personagens, assim que o mundo permitir que a gente volte a viver e acontecer por aí.
Porque a verdade, Queridinho, é que eu, com ou sem você, sou uma grande história. Deliciosa de acompanhar. Por isso, até entendo esse seu movimento de me acessar.

Mas o que a gente viveu foi só uma página, disso tudo, que eu passei. 

E você? Passou.
Tchau tchau.


 

Para a esperança.



Brasília, agosto de 2020
Carta para minha esperança,
Tínhamos tantos projetos, já passamos da metade do ano e não concluímos nada. Mais de dez itens para realizar e nenhum deles riscado. Às vezes acho que ainda teremos tempo, outras acho que teremos sorte se chegarmos ao fim do ano. Será que estou sendo ingrata demais em reclamar disso? Sei que tá foda.
Tá foda ver os dias correndo tão depressa e não ter domínio sobre eles. De que adianta ter, teoricamente, tempo para criar e não ter cabeça o suficiente para colocar os planos no papel. Sei que as reclamações estão repetitivas, mas o que fazer com os dias que parecem infinitamente iguais? Tinha plano de encontrar amigas em Salvador, adiamos para o próximo ano. Tinha plano de manter a dieta em dia, mas tenho comido demais – a compulsão está cada vez mais forte. Tinha planos de iniciar um relacionamento. Tinha dito: desse ano não passa. E tá passando. Sei lá. Tá difícil acreditar que sairemos bem dessa, sabe? E tem dias, como hoje, que eu me pegando pensando: por onde a minha esperança?
É, eu não sei.

Para Éden.



Vitória da Conquista, agosto de 2020

Nhaí, véi?

A gente tá na mesma cidade, morando tão pertinho, que parece inacreditável estar escrevendo uma carta a você. Os tempos andam cheios de novidades esquisitas e a gente faz o que? Se adapta, uma vez que, graças aos deuses, temos esse privilégio. 

Hoje eu vim te dar parabéns, irmão, e fiquei pensando que ainda em março, no meu aniversário, tudo isso já tinha começado. Não nos vimos. E agora já podemos somar mais de quatro meses que não nos vemos, exceto quando você apareceu aqui na porta antes de ontem, correndo, e mascarados e afastados, trocamos um olhar de segundos. Naquela época, março, agosto parecia distante e tinha uma áurea de solução. Infelizmente ainda não estamos nessa etapa, mas temos sobrevivido bem e fortes. E em meio a tudo e tanto, temos motivos para comemorar.

Contrariando toda essa onda que criaram em cima do mês de agosto, para mim ele sempre foi celebração. Eu lembro dos meus sentimentos confusos quando te vi pela primeira vez no hospital, recém-chegado, vestido de amarelo. Que susto ganhar um irmão! Que ciúme. Que raiva. Que disputa. Que companhia. Que chatice. Que cumplicidade. Que saco ter que sair e levar. Ter que ficar e cuidar. Que bom festejar. Contar segredo. Dar risada até chorar. Que pirraça. Que sorte! Que insuportável. Que inteligente. Fala de novo do meu irmão que eu te dou um soco. Sim, é meu irmão aquele ali, o mais bonito. O mais velho é Éden, depois de mim. Ele se acha, mas ele pode. Eu vou embora pra Bahia. Que chorão. Ele veio embora pra Bahia. Engenheiro. Formou, dono do mundo. Éden é meu melhor amigo. Não tô aguentando mais, Jaya. Calma que eu vou. Nos últimos anos a vida me quebrou, não consigo andar, brou. Calma, vem pra cá, vamos resolver isso. Cadê Éden? Chama Éden. Que homem incrível. Ele consegue o que quer. A gente vai morar juntos. A gente mora um no outro. Eu não digo que amo, mas eu falo o tempo todo através de tudo. Que dramático. Come menos, véi. Leonino, já viu. Se plante! Só mesmo tu pra aguentar. Jaya me ama incondicionalmente, meu filho. Vamos voltar a ser magros. Pede a pizza na pietri que hoje vem em dobro. Bethânia linda da tia. Vem pra cá que vou fazer um feijão. Calma que a gente vai fazer o corre do livro, lê o edital. O negócio dos meninos tá arrasando. Éden não consegue ficar quieto. Rapaz, lá em casa a gente se vira. Minha mãe bota fé em todos nós. 

Que felicidade estarmos juntos, mermão, mesmo nessa separação forçada. Acho que nunca ficamos tanto tempo sem um abraço, exceto quando vim embora e você demorou um ano pra chegar também.

Salve dois de agosto, véi! Você. Essa fase massa que você tá vivendo. Que felicidade termos tantos motivos para agradecer. A saúde dos nossos. Sua vida. Seus processos. Tanta história. Mais um ano superado. Você me levantando e eu te aplaudindo. E que assim nunca deixe de ser.

Feliz ano novo, viu? Quando tudo isso passar a gente se embola. Nos canto tudo. Eu sempre te escrevo e termino com algum trecho do leãozinho de Caetano. Mas hoje eu vim falar o essencial: eu amo você.

Beijo, brou.

Jaya.

Para o amanhã.



Salvador, julho de 2020

Querido amanhã,

Não é exatamente confortável te escrever, porém eu já me cansei de só pensar. Meus dias se repetem:  hoje parece ontem e você nunca vem.  Mas eu quero. 

Li outro dia que precisamos ter paciência. Ah vá. Há meses, estou presa em dias tão monótonos, esquisitos, melancólicos... 

Olha, senhor amanhã, eu não estou querendo te dizer que eu não tenho feito coisas ou progressos, tá bem? Mas não finja que não sabe do que eu tô falando. Todos os dias parecem um grande domingo, e às vezes nem faz sol, cara!

Preciso muito de você agora. 

Perdeu a graça deixar quase tudo pra depois e eu já não sei mesmo o que fazer com essa vontade de sair por aí, com meu sorriso no rosto (e extremamente visível, tá ligado?) e recuperar os dias que me foram arrancados por essa situação doida em que o mundo se encontra. 

Não dá mais pra viver as horas sem nem ao menos senti-las passando. Por mais que repitam, insistentemente, que a vida continua e que seguimos em frente, a grande verdade é que a minha vida não continuou pra lugar nenhum.

Nunca estive tão nostálgica, brother! Eu lembro com riqueza de detalhes quantas vezes a última pessoa que eu vi de perto piscou enquanto falava, sabe? Eu não quero enlouquecer, muito embora na maior parte dos dias eu já me sinta completamente louca.

Não aguento mais meu calendário cheio de ontens melodramáticos, semanas passadas e hojes perdidos. Eu preciso que você chegue aqui de uma vez. Porque amanhã vai ser melhor, não é o que dizem? Pois é.

Mas, por favor, chegue mansinho... venha logo, mas venha devagar, entende? Que eu quero ter tempo pra te abraçar com todas as listas que eu elaborei,  planos de viagens, passeios, jantares e declarações de amor que eu vou berrar, com certeza, assim que você chegar. 

Hoje tá tudo meio “coisado”, difícil de lidar. Mas, pelo menos, eu sei que amanhã vai ficar tudo bem.

Então chega logo, cara! Facilita.

Beijo, Má.

Para o mundo.


 

Vitória da Conquista, julho de 2020

Mundo,

Você tá foda.

Já não sei mais dizer como tenho me sentido. Tem dias que abro os olhos e fecho de novo, meditando pro sono durar e me deixar na cama o maior tempo possível. Tem dias que acordo fazendo faxina e dançando, preparo uma sobremesa incrível, leio muito, escrevo, faço projetos descolados para o futuro. Tem dias que eu acho que não vai ter futuro e fico vendo filmes e séries e comendo pipoca debaixo do edredom tentando evitar qualquer dose de realidade. Tem dias que chamo minhas pessoas pra conversar aqui dentro do meu telefone e dar um jeito de amenizar o sem fim de saudades que sinto desse tanto de gente que me compõe. Semana passada recebi um vídeo de meu tio cantando e chorei. Tenho uma lista de preocupações, mas curiosamente minha ansiedade não anda tão ansiosa como antes. Talvez fugir de notícias ruins tenha me ajudado a dormir melhor. A ioga tem sido a única terapia praticada religiosamente e misturada ao cheiro de incenso eu acabo achando que a vida continua massa. Estamos aqui, né? Isso já é motivo o suficiente para acreditar no amanhã. 

Tenho sentido falta de um denguinho. De um abraço. Um cafuné deitada num colo macio. Falta de ser olhada de perto, sabe? Quase por dentro. Tenho sentido falta de ir me encantando por alguém a cada novo encontro. Falta de pegar fogo, também. De acender quem me tocar. Troquei de pele nos últimos meses e nesse processo muita coisa mudou no meu avesso também. Ando louca pra sair desse casulo e inaugurar minhas novas asas.

Enquanto tomo banho, canto músicas antigas e deixo escorrer todas aquelas velhas crises que se penduravam em meus cachos. A água leva. E lava. O que fica é o que merece ser enraizado. Fica o que estará arraigado em mim assim que as portas se abrirem novamente. E eu vou sorrir de um jeito tão bonito que o sol vai querer me olhar de frente, só pra se misturar um pouco no meu tanto de luz.

Tem dias que dói pra caralho e a incerteza segura a gente pelas mãos. Tenho aprendido a encará-la e dizer muito firme: not today, satan. E seguimos cada um com seu antídoto, né?

Eu poderia repetir a chatíssima frase dizendo que "está tudo bem não estar tudo bem". Mas é aquilo: não estar tudo bem não está bem porra nenhuma. A gente sabe. Então a gente aceita. E chove. Depois a gente supera os gatilhos e ganha todas essas batalhas internas dessa guerra eterna que somos.

Então bora. É como diz Luiz Melodia naquela música: eu quero é mel!

Oi, amiga.



Brasília, junho de 2020

Oi, amiga.

Tava aqui relendo as nossas conversas de final e início de ano. Planejamos tantas coisas e fomos freadas por essa maldita pandemia. Sinto raiva, sabe? E tristeza também. De não poder ir ver o o sol se pôr na Ermida, de ir à livraria à procura de livros novos, de passar um fim de semana em Pirenópolis ou desbravar, como havíamos planejado, algumas cachoeiras da Chapada. Tudo o que planejamos parece tão distante e utópico. Me questiono se um dia voltaremos a viver os nossos sonhos e planos. Tem dia que parece que vou pirar, sabe. Não sei se por desespero, tristeza ou simplesmente saudade. Saudade das nossas conversas, das nossas loucuras, de tá junto, sabe? Dói não saber quando nos reencontraremos e dói, mais ainda, não ter uma data para me apegar. Hoje te escrevo assim na esperança de encurtar um pouco a distância e aliviar um o peso que há no meu coração. Escrevo com fé de dias melhores, sabe. Escrevo apostando num amanhã melhor. Fica bem daí que eu tento daqui, tá?

De sua amiga, Pâmela.

Benzinho.



Salvador, julho de 2020.

Benzinho, hoje eu vi um passarinho sentado na minha janela. 

Passei o dia sentindo o gosto de um choro que não vinha de jeito nenhum, mas assim que eu vi o bichinho, danei a chorar, acredita?

Fiquei com inveja da liberdade do passarinho, que pode escolher de qual janela ele verá o mundo. Eu só tenho uma. 
Lembrei daquele forrozinho bom de Geraldo. Aí fiquei aqui, sentada, chorando, inclusive porque não teve nem forrozinho bom esse ano. 

O São João passou voando aqui pela minha janela também, nem deu tempo de agarrar. 
Tô com saudade de muita coisa, benzinho, mas principalmente de ser um pouco mais otimista. 

Não dá, não acontece. Às vezes é dificil  pensar em cinco boas razões pra prosseguir com esses meus dias fuleiros. 
Perdi a certeza infantil de que dias melhores virão, porque a verdade é que eles não chegam nunca.

Tava aqui chorando, lembrando, e me veio você na cabeça. Tô mandando essa carta pra dizer que, mesmo triste,  mesmo chorando, se eu penso em você brota um sorriso no meu rosto. 

Teu abraço é o primeiro lugar que eu quero visitar quando deixarem a gente sair de casa. 

E vou fazer igual à música: feito passarinho, repousar à beira da tua janela e te soprar um beijo.

Acho que tu é meu motivo, benzinho, pra continuar esperando isso passar.


 

Baby.


 

Vitória da Conquista, junho de 2020

Baby,

Sejamos honestos: a quarentena é um perigo para a mulher que arde. Essa mulher meio bicho, que se vê enjaulada e sem acesso às possibilidades de caça. Roda em círculos e deita no chão, nua, enquanto rosna e lambe os lábios, delirando em cima das futuras presas que observa de muito longe.

Essa mulher com esse faro aguçado assim, procura dia e noite algum vestígio do que possa virar satisfação. Inventa histórias sozinha, mordendo a tampa da caneta e pensando em todas as maneiras possíveis que você poderá tocar seu corpo quando os cadeados se abrirem novamente. 

Pode chegar pisando macio, com algum tom amadeirado no seu cheiro. Pode estacionar muito colado, duvido você não se queimar. Pode afastar os cachos dos meus olhos, ler bem aqui no fundo da minha retina o que farei com você em seguida. Se entrega, baby, facilita. Mas se você preferir, eu posso dar o bote. Não existe antídoto em nenhum lugar senão dentro de mim. Deixa eu te mostrar por onde tuas mãos podem rastejar. Segura firme e me engole, devagar, é uma opção. Me espalho só para sentir você me juntando. Não sou tua, mas pode imaginar assim. 

Quando eu estiver solta e escolher me trancar nos teus abraços, não se espante. A selva às vezes se deixa domesticar por algumas horas. Eu sinto fome e você é uma sacanagem para o meu apetite infinito. Minha boca fica molhada pedindo o teu gosto. Pode vir sem embrulhos. Sou suficiente para esquentar você. Então me guarda aí, para usar daqui a pouco. 

Sim, já estou entregue. Você, quando chega?

Querido diário.



Brasília, junho de 2020

Querido diário,

Ontem eu não quis, mais uma vez, levantar da cama. Tenho sentido tudo com muita intensidade. Meu corpo dói, a mente está pesada. Sinto que a qualquer momento vou explodir. Ligo a TV e as notícias continuam iguais. Não há vacina e a esperança vai diminuindo cada dia mais. Não consigo enxergar, por mais que eu me esforce que o amanhã será melhor. Tomo um café assistindo o telejornal e sinto vontade de chorar a dor de quem eu nem conheço. Todo dia morre o amor da vida de alguém e eu me apavoro com a ideia de enterrar alguém que amo também. Digo baixinho que sinto muito e realmente sinto. Existem muitas lacunas dentro de mim e já não consigo preenchê-las. Sonho com um amanhã que parece até utópico devido às incertezas que estamos vivendo. Tenho buscado me recordar de dias felizes como combustível para continuar caminhando. Fecho os olhos me vejo rodeada de amigos, sinto o mar beijando os meus pés, sinto o quentinho do abraço de minha avó, me vejo inserida na minha rotina de acordar cedo e pegar um trânsito imenso. Tenho apostado, mesmo na desesperança, que logo estaremos todos juntos. Que o amanhã virá cheio de abraços, beijos e saudades. E sabe? Já estou pronta pra que ele chegue para me consolar.


Para Zé.


 


Salvador, junho de 2020

Querido Zé,

Sim, eu vou te chamar de Zé. A ideia dessa carta chegar em mãos que não sejam as suas, me causa um pouquinho de taquicardia. Já é um passo muito grande eu estar dizendo essas coisas. Imagina se mais alguém fica sabendo? Por isso, um codinome, igual o Cazuza fez. E eu escolhi Zé, porque quase sempre tem um João pra achar que eu tô falando com ele. Mas eu tô falando com você. É importante que isso fique evidente.

Sabe, Zé, eu nunca encostei na tua mão, mas de vez em quando eu me pego acreditando que teu toque deve ser bem levinho. Não sei explicar. E penso também na gente andando pela praia, descalços, de mãos dadas, escolhendo ser piegas, somente porque podemos. Porque finalmente podemos.

Durante esses devaneios você está sempre usando aquela sua camisa azul, de botão, e vestindo um olhar extremamente maravilhado. Não por mim, muito embora a fantasia seja minha e eu pudesse imaginar isso sem pudor algum: você, assim, maravilhado pelas minhas cores.

Mas não, você olha para o céu, pra a barraquinha de acarajé, pra as mesinhas amarelas dos botecos organizadas na calçada, pra as nossas pegadas na areia. Isso tudo que indica que o mundo voltou a acontecer tranquilamente, com a mesma pressa absurda de antes.

Zé, eu me apaixonei pelo som da sua voz. E pelo modo com que você frequenta os meus pensamentos. Eu te lembro e instantaneamente tudo parece estar bem. Acho que isso é o equivalente à sensação de um primeiro beijo. Sei lá.

Nesses dias de solidão forçada, eu gosto de fumar alguns cigarros encostada na janela, admirando uma lua que não é minha, mas imagino que será nossa algum dia. Minha e sua, sabe? Como nas poesias.

Eu gosto de sentir o que sinto quando penso em você. É que são tempos tão difíceis, com tudo meio escuro e frio... parece mágico ter um nome pra aquecer o coração. Desejo o fim dos tempos sombrios, só pra que eu possa, enfim, descansar minha ansiedade no teu abraço. Um dia, quem sabe. Espero mesmo poder te encontrar em breve pra a gente cantar aquele refrão. E todos os que virão.

PS: Eu gosto muito de você.

Para Môni.




Vitória da Conquista, junho de 2020

Môni,

Esses dias tu me marcou numa foto de uma das cartas que a gente trocava quando eu ainda morava em Roraima. Fui atrás da minha caixinha de palavras e tu tava lá. Li algumas e fui sentindo saudades daquele tempo onde a gente carregava esse hábito de sentar e pensar no outro e carregar no papel o máximo de presença que a gente conseguisse. A gente escrevia tanto, nera? Cartas, e-mails. Aí hoje eu decidi falar contigo assim, por aqui, pra tu ouvir um pouco minha voz já que tenho esse pânico de telefone. Há alguns anos a gente tá mais perto, mas agora a gente tá longe de novo.

Tava pensando que em fevereiro eu disse que ia passar a semana santa com vocês. Eu já tinha criado toda aquela expectativa feliz de sempre quando pego a estrada pra chegar aí. Ia ter o vatapá de minha tia, resenha com minha cara pela lembrança imortal da vodca que me derrubou, cachacinha, gritaria das meninas, música e um monte de abraço. Eu e tu, coladas. Tô tão precisada desse teu colo, nega. Ave Maria, ultimamente tem sido tanta pancada.

Aqui a cidade abriu o comércio, relaxando uma quarentena que nunca existiu. Sei que Jequié tá ainda mais foda, com toque de recolher e tudo. Imaginar tu trabalhando no hospital já me tirou o sono algumas noites, principalmente no dia que tu ficou doente. Todo dia eu peço aos deuses pela saúde de vocês, que nem peço pela minha galera lá em Boa Vista. Continuem se cuidando, por favor. E fica forte daí pra eu não endoidar daqui. Essa semana que passou travei várias lutas internas com a ansiedade. Fico tentando me distrair mas depois de tanto tempo até a distração já virou rotina, sabe? Às vezes deito na sala e Bingo fica esquentando meus pés enquanto Pedro toca alguma coisa no piano e eu quase consigo sentir alguma paz. Por aí tá sendo como?

Junho chegou e é claro que eu automaticamente lamentei, de novo, não poder estar com vocês. São João só pode ser aí, com nossa fogueira, meu tio na sanfona e a gente se esquentando antes de descer pra praça e ser feliz com aquele forró e cheiro de quentão. Ou até fazer tanta festa desde de manhã e não ter condições de ir pra rua de noite, tu lembra? A gente tem tanta história. Tu é dos personagens centrais da minha vida. Tá sendo estranho passar por essa pandemia sem poder ir aí te pedir socorro em silêncio.

Eu tenho pensado tanto, Môni. Tenho feito uns planos corajosos, tenho enxergado jeito diferentes de viver, tenho até sonhado, mas... Como é que vai ser de verdade depois que isso passar? Quem vai dar conta do mundo? Eu queria acreditar que vai ser melhor. Mas nunca foi, né? É muita coisa. Eu sei. Tu sabe. A gente vive as mesmas aflições. Eu só queria mesmo é dizer que tô com saudades. De Malu, Helena, tia Lourdes, tio Eden, Elias, Ivo, Rosa, Cecília, Clarice, Isadora. De como sou recebida aí. De como tu me acolhe e me ensina sobre amor enquanto sorri pra mim. Eu sinto falta de como já foi. E eu quero recuperar tudo o que tem ficado pelo caminho.

Dá um beijo em todo mundo. Eu amo você. Desde sempre. Pra sempre

Fica feliz, viu?

Jaya

Remetente