Para depois do amanhecer


Carta para depois do amanhecer

Quando você estiver lendo esta carta eu já terei ido embora. Tenho pânico em prolongar despedidas; prefiro os silêncios e um aceno de longe, principalmente entre duas pessoas como nós, quebradas e latejando dores com as quais ainda não sabemos e nem queremos lidar.

Talvez você não tenha conseguido perceber, mas existe um detalhe sobre mim que é possivelmente o mais alarmante: acredito no amor. Esse é  o único traço delicado da minha personalidade — e também o mais intenso. Eu respiro o amor, como o amor, me cubro com ele. Mergulho no amor da cabeça aos pés, mesmo quando não é profundo o suficiente para me abrigar. Luto pelo amor. Eu fico. Acredito na cura através de. Danço com o amor. Faço manifestos nada sutis para que ele seja sentido em tantos mundos quantos forem possíveis. Não desfaço minhas malas em nenhum espaço onde ele não esteja, mas se o ambiente for receptivo, tento eu mesma plantá-lo. Em mim o amor está e é. E prestando atenção um pouco mais de perto, você perceberá que, à parte tudo, amor eu sou.

Não uso frases decoradas, não sei atuar, me guio pela minha intuição noventa e nove por cento das vezes. Minha sensibilidade equilibra o timbre da sua fala, seu jeito de estar, a maneira como você pontua uma expressão. Abrange o que você guarda nos olhos e o que tenta esconder enquanto pisca. Consigo enxergar o que fica pendurado nos seus cílios, o que diz o movimento que você faz com as mãos e a maneira como você segura o copo antes de receber a bebida em sua língua. Pelo abraço faço radiografia completa das veias por onde escorrem os seus melhores carinhos. Se eles vão desviar em direção aos meus, a cadência do seu coração explicará.

(...)

 (Do livro "Bem Ditas Cartas", página 56).


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O projeto tem apoio financeiro do Estado da Bahia através da Secretaria de Cultura e da Fundação Cultural do Estado da Bahia - FUNCEB (Programa Aldir Blanc Bahia) via Lei Aldir Blanc, direcionada pela Secretaria Especial da Cultura do Ministério do Turismo, Governo Federal.

Cadu,




Belo Horizonte, 20 de janeiro de 2021

Cadu, 

hoje faz 4 meses que eu me despedi de você. e eu ando teimando que meus olhos ainda te veem. tem quem diga que eu tô doida, pois confirmo. digo que tô, cê sabe que sempre fui mais da loucura que da normalidade. mas num há de ter, Cadu, lugar que eu olhe e não te veja. te vejo na cozinha passando café logo pela manhã, te vejo na chuva que cai aqui agora deixando um friozon e por pouco consigo sentir seu abraço apertar meu corpo - que agora meu coração jorra e chego a pensar que só ele, apenas o seu abraço, poderia tapar esse buraco que ficou. Cadu, te vejo no cachorro que apareceu aqui pela rua, aposto que cê traria ele pra casa, então, eu trouxe. tá aqui, sentado, assustado com o trovão que balança as paredes, e tem sido boa companhia, cê ia gostar dele. te vejo no céu, cê que é de céu, sempre foi, tenho certeza que anda a dançar com as estrelas em algum lugar. pois comecei a dar nomes para as estrelas. eu e caetano, o cachorro, sentamos às vezes no quintal e ficamos a nomeá-las. queria eu te apresentar minha favorita, chamo de cadência, brilha que é uma beleza, e sempre que eu olho pro céu ela tá lá a me encontrar, assim como você. cadu, eu tenho te visto no vento que toca as folhas e as levam pra lá e pra cá, como se fossem seus próprios pés. veja, te imaginei aqui dançando vento e me veio um sorriso, um sorriso que carrega saudade, tanta saudade. e eu tento agarrar nessa poesia de você que ficou no meu olhar. tento. que parte de mim sente medo do que vai existir quando ela se for. mas a outra parte cadu, sabe que ela há de deixar algo. caetano, cadência, a dança das folhas. eles tem me ajudado com o tal buraco no coração. que dói, Cadu, ainda dói, mas eu sou grata por você ter me deixado tantos sorrisos a encontrar nesse mundo. Que a tua travessia esteja sendo tão bonita quanto você, meu amor.

com afeto, 

Amélia.


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Querida Júlia,


Querida Júlia,

É, eu sei. O tempo passou tão rápido da última vez que nos vimos. Eu nem consegui te contar o que eu tinha em mente.

Estávamos deitados no banco de trás do seu carro. Lembrei você da nossa última ida à praia. Você reclamava dos cabelos desbotados e das gordurinhas provenientes da ceia de natal. Eu não precisei fingir não reparar. Você estava linda, como sempre; e até suas imperfeições eram perfeitas.

O que aconteceu com os nossos sonhos? Os meus, eu não sei. Mas os seus você realizou todos. Marido bem sucedido, um filho lindo, casa e carro do ano. Se pudesse escolher, queria minha liberdade de volta, você disse. Seus posts no Instagram diziam o contrário.

Sabe Júlia, andei pensando em nós...Se é que um dia existiu um "nós". Ou simplesmente deixei a vida dar um nó por causa do seu olhar em mim. Escrevo para te contar uma grande novidade, mas acho que não tem mais clima. Queria ser seu amigo novamente, confidente e a sua primeira opção; mas fui promovido a terceira.

Eu só precisava te contar. E isso, desde a última vez que te vi. É que ela é linda...Seus cabelos ruivos contrastam com a sua forma poética de ver o mundo. Ela gosta de escrever prosa porque tem medo dos versos. Nunca quis ser mãe...mas se dobrou a vontade do universo. É a melhor amiga que uma pessoa pode ter...E eu a deixar ir, pois queria que ela fosse feliz.

Eu estou apaixonado pela minha melhor amiga.


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Hoje tá foda.

 


Moça, eu tô te escrevendo pra você não me esquecer, mas a verdade é que eu não tenho absolutamente nada de novo pra te dizer. 

As coisas continuam difíceis e o mundo continua mesmo meio feio. Às vezes, encaro a minha janela e me pergunto: "A vida é isso? A vida é... Só isso?!"

Entre risos, me deixo balançar no ritmo da rede que eu pendurei no meio da minha sala. 

E escolho cores diferentes pra enfeitar a casa e o sorriso, mesmo sabendo que não vem ninguém apreciar.

Sozinha, descubro verdades alarmantes a meu respeito. 

Sabe, moça, eu gosto dele. Pois é. 

E eu sinto saudade de tomar sorvete olhando o mar. E eu não tenho mais PACIÊNCIA pra quem finge ser doce e só entrega amargura nas palavras. 

Moça, a única coisa que a gente tem hoje pra interagir com o mundo, são as nossas palavras. E algumas pessoas não compreendem o peso que elas têm. 

Acho que é por isso que tenho escolhido o silêncio, tenho escolhido esconder debaixo da cama as minhas opiniões.

É que, como eu disse, as coisas andam difíceis, o mundo já é muito feio e eu sinto que se eu não tiver um pouquinho de mel nos meus lábios, melhor mesmo é não dizer nada. 

E aí eu me recolho à insignificância de uma existência completamente ordinária. Não tem nada maravilhoso pra te contar. 

Pela manhã, eu tomo um copo bem quente de café, acendo um incenso de lavanda e suspiro um sopro de esperança que se esvai pelas frestas na porta, na primeira oportunidade. 

Eu sinto saudade de muita gente, moça. Mas também sinto alívio pela distância da maioria dessas pessoas. 

Eu tenho pressa pra que certas coisas acabem logo, projetos se concluam e eu possa seguir sendo só uma menina que chora sozinha no escuro precisando de um denguinho. 

Aliás, moça, que falta faz um dengo nesses dias difíceis, viu? 

Um carinho qualquer. 

Tô ansiosa, tô carrancuda, vivo aborrecida. Acabou o açúcar e tá sobrando limão.

E eu desejo um bolo de chocolate com cobertura escorrendo pelas beiradas do prato. Assim, bem muito. 

Aí, moça. Eu espero mesmo que amanhã seja doce. Porque, hoje... Hoje tá foda.


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